
This article was originally written in Portuguese and published in Aos Fatos. The key points of this article are presented in English below, followed by the original version of the story. For a full English version of this article, please click on the “Translate page with Google” button on the upper right-hand side.
Key Points
- Under Governor Tarcísio de Freitas, the São Paulo government has become a key ally for the agribusiness lobby, serving as a primary showcase for the industry’s strategic push to influence public school curricula and improve its public image.
- Insiders at the Vanzolini Foundation, which develops digital lessons for São Paulo, report being pressured to scrub mentions of agribusiness’s environmental and social impacts (such as deforestation) from classroom slides following meetings with sector lobbyists.
- The NGO "De Olho no Material Escolar," which our investigation shows has a history of promoting climate denial and distorting scientific data, donated a training program to the São Paulo state government reaching 220 technical educators.
- The educational interference is part of a broader marketing campaign to turn agribusiness into a "national passion" in Brazil.

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Lobby do agro usa governo de SP como vitrine de projeto de interferência na educação
- Funcionários da Fundação Vanzolini relatam orientação para que menções negativas ao agro não aparecessem em material digital, mas governo nega;
- Gestão de Tarcísio promoveu treinamento para professores doado por ONG do agro que dissemina negacionismo climático;
- Atuação da associação De Olho no Material Escolar coincide com campanha para tornar o agro “paixão nacional”;
- Esta reportagem é parte da série Mentiras Plantadas, feita com o apoio do Pulitzer Center.
Em 5 de novembro de 2023, estudantes de todo o país enfrentaram o primeiro dia de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Na manhã seguinte, representantes da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) divulgaram nota para protestar contra três questões da prova que, segundo eles, promoviam “negacionismo científico” contra o agronegócio.
Duas das perguntas abordavam o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia e o impacto dos latifúndios sobre comunidades tradicionais do Cerrado, enquanto a terceira fazia um paralelo entre o envolvimento de bilionários na corrida espacial com as consequências da chegada dos europeus para os povos indígenas. Tratavam de problemas reais.
Entidades científicas criticaram a iniciativa da FPA, chamando-a de “tentativa de censura”, e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) negou a anulação das questões, argumentando que as respostas corretas dependiam de interpretação de texto, não de opinião.
Já na Seduc-SP (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo), o rumo foi outro, segundo relatos. “Na segunda ou na terça depois do Enem, o [secretário Renato] Feder teve um encontro com um grupo do agronegócio”, diz uma fonte que testemunhou a orientação que saiu da reunião para a Fundação Vanzolini, onde era produzido material didático para a rede estadual.
“Eles pediram que os PowerPoints que seriam usados nas aulas em nenhum momento fizessem essas referências [aos problemas do agro]”, diz o depoimento, concedido sob a condição de anonimato.
A secretaria nega qualquer interferência sobre o conteúdo pedagógico ministrado na rede estadual de ensino. "Não houve reunião externa, nem tampouco quaisquer reuniões institucionais com representantes dos setores produtivos que tivessem determinado, recomendado ou interferido em questões pedagógicas", afirmou o órgão em nota.
Trabalhadores do mercado editorial ouvidos pelo Aos Fatos, porém, relatam que, desde que era secretário da Educação no Paraná, Feder tem fama de “implicar” com alguns conteúdos, como a presença cada vez maior da história africana nos livros didáticos.
Quando o empresário foi chamado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) para assumir a mesma pasta em São Paulo, suas posições não representavam um obstáculo. Pelo contrário, a simpatia em relação ao agronegócio era justamente um dos pontos de convergência com o novo governo.
Na gestão de Tarcísio, São Paulo se tornou a principal vitrine da investida do lobby do agro na educação pública, movimento que se expande para outros estados, como o Rio Grande do Sul.
Num dos eixos dessa parceria está a Donme (De Olho no Material Escolar), associação financiada por empresários que é acusada de pressionar editoras para retirar dos livros escolares menções aos problemas socioambientais do agro.
Na série Mentiras Plantadas, Aos Fatos mostra como a entidade deturpa a ciência e dissemina negacionismo climático com a ajuda de um convênio com a Esalq-USP (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo).
Na mira estão temas considerados sensíveis para o agronegócio, como a relação direta do setor com o desmatamento da Amazônia e as mudanças climáticas — a agropecuária é a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil.
Em São Paulo, a Donme é recebida de portas abertas. A entidade já foi premiada pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios e escolheu o estado para estrear seu programa de capacitação de professores, o Mestres no Agro, que em 2024 treinou 220 educadores do ensino técnico estadual.
O treinamento foi doado pela ONG ao governo paulista e teve custo estimado em R$ 286.095, segundo o termo de doação obtido pelo Aos Fatos por meio da Lei de Acesso à Informação.
No mesmo ano, uma emenda parlamentar apresentada pelo deputado estadual Lucas Bove (PL) tentou destinar R$ 100 mil em dinheiro público à associação para a aquisição de “equipamentos, mobiliário e bens diversos”, mas foi impedida por falta de documentação.
Aos Fatos enviou um pedido de posicionamento ao gabinete de Bove, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Paixão nacional
A atuação da Donme não deve ser vista de forma isolada. A formalização da associação, em 2021, coincide com a criação do movimento Todos a Uma Só Voz, que nasceu para unificar entidades de diversos ramos do agronegócio com o objetivo de melhorar a imagem da atividade entre as populações urbanas.
Dessa iniciativa surgiu a “Marca Agro do Brasil”, projeto que tem como meta “tornar o agro uma paixão nacional”, estimulando a admiração pelo setor — “da criança na pré-escola ao estudante de jornalismo”, informa a apresentação da iniciativa.
No vídeo de introdução, é previsto que o projeto “Marca Agro do Brasil” criaria um hub de conteúdo, com equipe própria, para produzir material para abastecer seu portal e todas as ações de comunicação do projeto.
“Um dos grandes diferenciais deste hub será a presença de um especialista em sistemas de ensino. Ele adequará os conteúdos para os diversos públicos. Assim, o mesmo conteúdo terá versões diferentes para as crianças, jovens e adultos”, diz o vídeo.
O esforço de marketing, liderado pela ABMRA (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro), veio após uma pesquisa constatar que, dos 30% da população brasileira que tinham uma imagem negativa do agro, metade eram jovens de 15 a 29 anos.
Lançado em 2022, o estudo listava entre os principais aspectos negativos ligados ao setor o uso abusivo de agrotóxicos, o desmatamento, a ocupação ilegal de terras e a emissão de gases de efeito estufa, dentre outros problemas reais que hoje entidades representativas do agro tentam retirar dos livros didáticos sob a acusação de “desinformação”.
Questionado por Aos Fatos sobre o que entendia como “desinformação sobre o agro”, Gedeão Pereira, vice-presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), mencionou uma suposta campanha de ONGs, financiadas com dinheiro europeu, para atacar a imagem do setor.
Ele passou a listar, então, uma série de informações não embasadas na ciência que provariam a sustentabilidade da agropecuária nacional. “O metano que o bovino emite é compensado pelo crescimento das plantas”, argumentou. Essa desinformação, de alcance internacional e patrocinada pela indústria da carne, também está presente no material didático distribuído pela Donme, como Aos Fatos mostrou.
A entrevista com Pereira foi feita durante a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), evento que colocou a desinformação na agenda das negociações por considerar que a circulação de mentiras faz com que governos e sociedade adiem a adoção de medidas consideradas urgentes para o planeta.
A agropecuária é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil. Para o vice-presidente da CNA, porém, o problema do agro passa pela comunicação. “Não existe opinião pública, existe opinião publicada”, defendeu, reconhecendo que o setor já obteve avanços nesse quesito.
“Em uma determinada época, nós éramos latifundiários, gigolôs de vacas. Eram esses apelidos que nos davam. De repente, nós passamos a ser o agronegócio, e o agronegócio passou a ser considerado”, disse. “Dificilmente hoje tu vê alguma reportagem da grande mídia que possa denegrir a imagem do agronegócio”.
Outro lado
Questionada sobre o Mestres no Agro, a Donme disse que o programa "é uma iniciativa de caráter técnico e educacional voltada à disseminação de conhecimento científico atualizado sobre o agronegócio para profissionais do ensino". A associação discorda da avaliação de que dissemina desinformação climática e diz que sua atuação é baseada em evidências científicas.
A ONG também nega que defenda a exclusão de temas sensíveis dos livros escolares, como desmatamento e mudanças climáticas, e sustenta que mantém diálogo aberto com editoras, apresentando pareceres e sugestões sem a pretensão de impor alterações (leia a íntegra abaixo).
Já a ABMRA sublinha que não possui nenhuma relação com a Donme e afirma que, entre os profissionais que atuarão no seu hub de conteúdo, “haverá um especialista responsável pela curadoria, assegurando que as informações sejam verídicas, provenientes de fontes seguras e livres de deturpações”.
A entidade também ressalta que “toda a comunicação e as ações do Projeto Marca Agro do Brasil serão pautadas por informações fornecidas por fontes confiáveis, como a Embrapa, o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Ibama e o Cepea Esalq-USP, além de outras instituições de notório reconhecimento no meio científico e acadêmico” (leia a nota).
A Fundação Vanzolini e a CNA não responderam aos pedidos de posicionamento. Este texto será atualizado em caso de resposta.
Esta é a terceira reportagem do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center.
Atualização: este texto foi atualizado às 11h21 de 20 de fevereiro de 2026, para incluir o posicionamento da Seduc-SP, e às 17h21 de 24 de fevereiro de 2026, para complementar a resposta da Donme com seu comentário sobre o programa Mestres no Agro.
Referências
- Agência FPA
- g1
- O Globo
- Matinal
- Repórter Brasil
- Aos Fatos (1, 2, 3, 4 e 5)
- Instituto de Tecnologia de Alimentos
- Internet Archive
- Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (1 e 2)
- Campanha Nacional pelo Direito à Educação
- Marca Agro do Brasil
- YouTube (@PlanetaCampo)
- Consenso