This article was originally written in Portuguese and published in Aos Fatos. The key points of this article are presented in English below, followed by the original version of the story. For a full English version of this article, please click on the “Translate page with Google” button on the upper right-hand side.
Key Points
- This fact-checking story debunks a viral pro-agribusiness video that misleadingly claims cattle ranching is not linked to deforestation, using a stabilization in total pasture area to mask the industry’s aggressive expansion into the Amazon and Cerrado biomes.
- The article draws on data from MapBiomas and the Amazônia 2030 project to reveal that 90% of deforested areas in the Amazon are destined for agro-pastoral activities, with cattle ranching playing a prominent role, and that over 60% of all new pastures created in Brazil since 1985 replaced native vegetation.
- The story exposes how the NGO Keeping an Eye on School Supplies disseminates climate and environmental misinformation through its "Agroteca" repository, a platform marketed to students and teachers as a source of "scientifically proven" content.

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Área total de pastagens não afasta responsabilidade da pecuária por desmatamento

- Vídeo pró-agronegócio mente ao rechaçar vínculo entre pecuária e perda de florestas;
- Apesar de área total da atividade ter se estabilizado nos últimos anos, produção avançou sobre Amazônia e cerrado;
- Enquanto procuram terras mais baratas, pastagens cederam espaço em outros lugares a plantações e outras atividades;
- Esta checagem é parte do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center.
O fato de o tamanho da área total ocupada pela pecuária no Brasil ter se mantido estável nos últimos anos não prova que o setor não tem relação com o desmatamento, ao contrário do que faz crer um vídeo da ONG ruralista De Olho no Material Escolar. Na verdade, a produção de gado bovino avançou nos últimos anos sobre as florestas e o cerrado, e pastagens em outros lugares cederam espaço para diferentes atividades, como a agricultura.
A peça de desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade que faz lobby pró-agronegócio. Apesar de ter sido elaborada em parceria com a Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), a Agroteca possui diversos conteúdos sem embasamento científico.
O vídeo desinformativo foi produzido para a ONG De Olho no Material Escolar pela Somos Educação, empresa dona de editoras como Ática, Saraiva e Scipione.
Para construir a alegação enganosa, o conteúdo exibe um gráfico que utiliza dados verdadeiros sobre a área desmatada anualmente na Amazônia Legal e a evolução das terras ocupadas por pastagens. No entanto, além de estarem desatualizados, os números não comprovam que a pecuária não seria responsável pelo desmatamento.
O gráfico cita entre suas fontes o MapBiomas, rede global formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora as transformações no uso da terra no Brasil. Aos Fatos enviou o vídeo para a avaliação do projeto, que disse ter encontrado irregularidades no trecho que “usa um gráfico de área total de pastagem para confundir o público”.
Apesar de o narrador do vídeo dizer que “a área de pastagem vem diminuindo cada vez mais”, na tela é exibido um gráfico que aponta para uma estabilidade no total de hectares dedicados às pastagens no Brasil após anos de crescimento. Esse movimento coincide com o registrado pelo MapBiomas, que utiliza imagens de satélite para mapear o território.
Os dados do projeto, porém, revelam que a estabilidade na área total não significa que a produção permaneceu imóvel. Na verdade, nas duas últimas décadas, os ganhos e perdas de áreas de pastagem foram similares — ao contrário do que aconteceu entre 1985 e 2004, quando o avanço dos pastos superou a conversão de terras para outros usos.
Ao esmiuçar essa dinâmica, o levantamento do MapBiomas aponta para uma conclusão contrária à do vídeo, indicando que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens foram criadas sobre áreas de floresta ou cerrado. Das terras que deixaram de ser pastos, menos de 25% voltaram à formação original.
Outro relatório, do projeto Amazônia 2030, mostra que 90% das áreas de floresta amazônica desmatadas são destinadas a atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque. Estudos científicos também vêm apontando para a relação entre a diminuição da maior floresta tropical do mundo e a criação de bois.
O deslocamento da produção de gado sobre as florestas também pode ser observado na sequência de mapas de uso da terra desde 1985, gerada com dados do MapBiomas:

Na animação, a cor verde representa as florestas, o amarelo mostra a área ocupada pela pecuária, e o rosa, as terras usadas pela agricultura. No mapa, é possível observar como a cor amarela avança na direção da Amazônia, enquanto é substituída pelo rosa em regiões mais ao sul do Brasil.
A disseminação da desinformação se insere no contexto da investida do agronegócio em projetar uma imagem mais positiva da atividade. Esse é o objetivo da atuação da ONG De Olho no Material, que atua no campo da educação.
Como investigação do Aos Fatos mostrou, a associação tem promovido ações para pressionar editoras de livros didáticos a alterar conteúdos verdadeiros que sejam considerados negativos para o agronegócio.
Outro lado
Procurada pelo Aos Fatos, a Donme considera que a conclusão de que a afirmação apresentada no vídeo seja falsa “não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis”.
“É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento”, afirma a nota da associação, que se coloca à à disposição “para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema” (leia a íntegra).
Já a Somos Educação não comentou o vídeo específico, mas disse em comunicado que “todo o material didático é atualizado seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”, e que “se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização.”
Responsável técnica pela curadoria da Agroteca, ao ser confrontada com as desinformações identificadas no repositório, a Esalq/USP disse que sua atual gestão reviu a coordenação do convênio com a Donme e que “as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.
Esta checagem e a reportagem sobre a pressão da Donme sobre as editoras de livros didáticos são parte do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center. Nos próximos dias, esta série vai mostrar a investida do lobby do agro sobre o poder público.
Méuri Elle (ilustrador)
Bernardo Moura (editor)
Leonardo Cazes (editor)
Referências
