This article was originally written in Portuguese and published in Tab UOL. The key points of this article are presented in English below, followed by the original version of the story. For a full English version of this article, please click on the “Translate page with Google” button on the upper right-hand side.
Key Points
- This article, published jointly with the documentary VESTIGIOS, is a diary of an expedition, with a brief of daily facts.
- The documentary VESTIGIOS (Traces) follows an expedition in search of signs left by the Isolated People of the Mamoriá Grande River area.
- The Brazilian government is analyzing whether to turn the Mamoriá Grande River area into a protected reserve for this isolated Indigenous group.

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Documentário narra expedição que monitora vida de indígenas isolados no AM
O Brasil tem hoje 114 registros de povos indígenas em isolamento voluntário, segundo a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Desses, 29 têm existência comprovada; os demais são considerados indícios ou casos em estudo. Em novembro passado, o fotógrafo Rogério Assis e eu acompanhamos uma expedição de indigenistas da Funai à terra de um grupo já confirmado no sul do Amazonas, na região do Médio Purus.
O objetivo da viagem, narrada neste diário e registrada no documentário "Vestígios - A História dos Isolados do Mamoriá Grande", que o UOL lança com exclusividade hoje, não era contatar os indígenas mas monitorar seus acampamentos, seguindo a política de não contato adotada pelo Brasil desde o fim da ditadura, que prevê o respeito ao direito desses povos refugiados na floresta de permanecer isolados.
A missão integrou uma das expedições periódicas das Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs) Purus e Madeira, responsáveis pela defesa de povos isolados e de recente contato na região.
A existência dos isolados do Mamoriá Grande foi comprovada em agosto de 2021, quando um grupo de indigenistas, em patrulha de rotina, instalou acidentalmente um acampamento próximo ao deles. A reação dos indígenas, com gritos e movimentação intensa, levou a equipe a recuar às pressas para evitar contato.
Desde então, expedições anuais percorrem as áreas por onde o grupo circula, sempre em estações opostas às de ocupação —acampamentos de seca são visitados na época das cheias e vice-versa. O princípio é o mesmo: chegar depois da partida e registrar os sinais que deixam para trás —redes, fogareiros, restos de alimentos, peças de cerâmica, marcas na vegetação (as "quebradas" de galhos)— para estimar população, mobilidade e traços culturais.
O povo isolado é formado por cerca de cem pessoas, possivelmente divididas em dois grupos. São caçadores-coletores, do tronco arawá, e não utilizam mandioca. Consomem uma batata venenosa, a Casimirella ampla —que dá tubérculos que podem passar de 200 kg.
Em fevereiro de 2025, porém, a dinâmica se inverteu. Uma pequena família —um homem jovem, uma mulher e uma criança- se desgarrou do grupo e buscou ajuda na comunidade ribeirinha Bela Rosa. Estavam famintos, exaustos e sem fogo.
Na estação chuvosa do sul do Amazonas, com lenha, folhas e gravetos encharcados, é praticamente impossível produzir fogo. Com tochas apagadas, o jovem se aproximou da casa de um ribeirinho e, por gestos, pediu que acendessem as brasas. Assim que conseguiu, voltou correndo para a mata. Os moradores acionaram a Funai, que passou a monitorar o grupo à distância.
Desde então, equipes tentam identificar a origem desse núcleo. Especialistas em línguas arawá e o indigenista Atxu Marimã —ele mesmo parte do grupo isolado hi-merimã, do qual sua família se separou há cerca de 30 anos (só ele sobreviveu)— ouviram suas falas, mas não reconheceram o idioma.
Este diário relata a expedição que visitou o acampamento flagrado em 2021. Acompanhamos indigenistas, alguns deles indígenas, que leem os sinais deixados na floresta como se fosse um relatório, onde podem verificar quantas pessoas são, quando estiveram por ali e se estão em boas condições de saúde.

A viagem aos isolados do Mamoriá Grande começa antes do avião decolar: são anos de tentativas frustradas de acompanhar uma expedição no Purus. Desde 2019, tentamos articular sem sucesso. Agora, enfim, deu certo!
Saímos de São Paulo, com escala em Brasília, até Porto Velho (Rondônia). Chegamos quase meia-noite, uma cidade quente, úmida e estranhamente familiar.
Estive aqui no fim de 2018, a caminho da Terra Indígena Suruwahá, numa viagem em que levava fotos feitas por Sebastião Salgado e na qual prepararia reportagens para a Folha de S.Paulo. De Porto Velho, segui em um teco-teco Caravan até Lábrea e depois num helicóptero do Exército, acompanhando dentistas que fariam próteses para indígenas que perdem os dentes cedo porque mastigam fibras vegetais para fazer tecidos e redes.

Foi nessa viagem que conheci Daniel Cangussu, indigenista da Funai, hoje chefe da Frente de Proteção Etnoambiental do Madeira. Combinamos que um dia eu o acompanharia numa expedição aos hi-merimãs. Nunca dava certo. Agora, vamos a outra Terra Indígena, Mamoriá Grande, onde vive um grupo isolado talvez aparentado a eles.
Dormimos no Hotel Slaviero, nome que lembra "escravo". Amanhã, estrada.

Porto Velho amanhece com 33 graus. Saímos para ver as ruínas da Madeira-Mamoré, ferrovia épica e trágica, hoje cenário turístico. Os galpões viraram feira; os trilhos que custaram milhares de vidas foram abandonados em nome de estradas e poucas hidrovias.
Penso no "autoimperialismo" brasileiro, expressão do escritor americano Benjamin Moser: destruímos nosso próprio passado para justificar obras faraônicas que arruínam também o futuro.
No dia seguinte, em Humaitá, embarcamos às 7h30 no ônibus para Lábrea. A estrada corta o que já foi floresta e hoje é tabuleiro de fazendas: desmata-se, põe-se um pasto ralo, poucas cabeças de gado e se espera a valorização da terra. Reserva de valor, especulação travestida de produtividade.
Humaitá concentra conflitos agrários e ataques a indígenas. Lábrea é o ponto final da Transamazônica. Chegamos às 15h30.

Lábrea é nosso portal para o Purus. Antes de navegar, passamos pelo ritual da saúde: exames de malária, filariose, hepatites, sífilis, HIV, covid. Viemos de São Paulo, sem malária, mas o protocolo existe para proteger os isolados de qualquer risco.
Daniel Cangussu e a equipe da Funai falam de batatas, mandioca e domesticação de plantas como quem comenta futebol. Aprendo que os isolados não conhecem a mandioca, mas a batata Casimirella ampla, rica em cianeto e ainda assim base alimentar de grupos arawá, que dominam seu preparo.
Vamos conhecendo a equipe: Lucas, chefe da Frente Purus; William, especialista em registros de isolados; Edilson, da Frente Purus; Chico, mateiro; José Lopes, Apurinã, outro mestre da "ciência mateira", como define Daniel Cangussu em sua tese; Mandeí Juma, uma das três últimas pessoas Juma; Atxu Marimã, único hi-merimã conhecido, hoje funcionário da Funai.
Entramos no barco Kandango, o mesmo que levou Sebastião Salgado aos suruwahá, em 2017. Dois andares, redes para os homens no salão de baixo, pequenos camarotes em cima para as mulheres. O motor custa a pegar, mas às 11h deixamos Lábrea. Começa também nossa quarentena: dias de convívio fechado antes de chegar perto da área dos isolados.
O Purus é uma serpente barrenta. Com pouca queda, não consegue abrir caminho reto na floresta e vai produzindo curvas.
A bordo, a Amazônia se mistura ao mundo digital: o barco tem wi-fi via Starlink. É o sinal que a empresa de Elon Musk espalhou pela região e que serve a indigenistas, missionários, ribeirinhos e garimpeiros.
Comemos arroz, feijão, macarrão, mandioca, carne seca. Na Amazônia, o "básico" é arroz, feijão e macarrão; a mistura é o que vem por cima. O café, como sempre, já nasce adoçado; tenho que fazer o meu sem açúcar.

Enquanto o motor ronca, entrevisto Daniel. Ele descreve as ameaças aos isolados do Purus e do Juruá: não tanto garimpo ou gado como em outras áreas da Amazônia, mas missões religiosas em busca de contato e conversão. Cita um missionário americano proibido de entrar em terras indígenas, que pressiona os Jamamadi a guiá-lo até os hi-merimã e os isolados de Mamoriá Grande.
"Hoje, a maior ameaça ao isolamento voluntário aqui são as igrejas", diz Daniel. O governo Bolsonaro (2019-2022) chegou a nomear um ex-pastor para chefiar a coordenação de isolados na Funai.
Dormimos em redes, embalados pelo motor.

Chegamos à Base Mamoriá e depois à Base do Macaco, no igarapé São Benedito. Chove forte; descemos na lama. Aqui o tempo se mede por níveis de rio, ciclos de chuva e horas de caminhada na mata.
As bases Mamoriá, Macaco e Igarapé Grande guardam as entradas da Terra Indígena Mamoriá Grande. A família isolada que fez contato em fevereiro de 2025 —jovem, mulher mais velha, criança— vive a cerca de 18 km de onde estamos, por trilhas que só a Funai e eles conhecem.
Daniel, retomando relatos de Atxu, descreve o sistema de sinais na mata: gravetos quebrados em alturas crescentes apontam o caminho da caça; um pau alto indica a direção em que o caçador levou o animal abatido, convite à partilha; um pau atravessado no trilho quer dizer "não passe".

À noite, a conversa derruba certezas escolares. Fico sabendo que, antes dos europeus, só porquinho-da-índia e lhama foram domesticados na América do Sul; que o Peabiru não era qualquer trilha indígena, mas uma via específica ligando o litoral paulista aos Andes; e que "terra-preta-de-índio" é sobretudo marcador de ocupações tupis (e não um sinal universal de ocupação antiga).
No Poção, local do primeiro acampamento em que se confirmou a presença dos isolados de Mamoriá Grande, vemos restos de cerâmica e armadilhas. Ali se encaixa a tese de Daniel: a arqueologia amazônica depende de cerâmicas e movimentações de terra, porque as casas de madeira somem com o passar do tempo. O que fica são sinais de movimento no solo, urnas, panelas.


Dormimos no barco, navegando de volta a Lábrea. Lá, entrevisto Lucas sobre o processo jurídico de reconhecimento da Terra Indígena Mamoriá Grande. O contraste é gritante: de um lado, varadouros e gravetos; do outro, memorandos e portarias.
Conhecemos Hércules, da Frente Madeira, que trabalha com os pirahãs e com os jumas. Ele nos levará à Terra Indígena Juma. Fala de operações contra invasores, roubo de madeira, grilagem contida a duras penas.

Saímos às 7h30 para a aldeia Juma, guiados por Hércules. Voadeira pelo rio Assuã, divisa com o Parque Mapinguari, até a base da Frente Madeira; dali, mais alguns minutos até a aldeia.
Os jumas de hoje são, basicamente, as três irmãs —Mandeí, Borehá, Maitá— e suas famílias, 32 pessoas. Aruká, o pai, foi o último homem Juma —morreu de covid em 2021. Por regras patrilineares, os filhos não seriam juma, mas uru-eu-wau-wau, etnia dos maridos.
As irmãs decidiram o contrário: querem reerguer o povo juma pelo nome, pela memória e pela política.

Mandeí narra a sequência de tragédias: missionários trazendo gripe e sarampo, mortes em série na família, anos vivendo à força entre os uru-eu-wau-wWau, longe da própria terra. Só em 2012 conseguem voltar; em 2021, a Terra Juma é reconhecida.
Pergunto se ela acredita na existência de um grupo juma isolado. "Deve ter", responde. "Vimos vestígios." Acredita que sejam parentes fugidos dos massacres. No ano que vem deve haver uma expedição para tentar encontrá-los.
Almoçamos com as três irmãs e suas famílias. Ao sair, fica a sensação amarga: um povo que decide renascer quase do zero, sabendo que a tradição se encerra nelas para ser reinventada pelos filhos.

Dia da Consciência Negra em Porto Velho. Dia de andar sem pressa, rever a Madeira-Mamoré, comer peixe.
À noite, fomos a uma pizzaria com Daniel e a equipe da Frente Madeira. Entre uma fatia e outra, ele destrincha etimologias: seu sobrenome, Cangussu, vem de akanga-açu, "cabeça grande" em tupi, um tipo de onça. Explica como, em suruwahá, "juma" virou sinônimo de inimigo violentíssimo e, por extensão, de metal e faca. A palavra para faca pequena é composta por "juma + bambu (material que antes usavam para fazer facas) + filha"; o facão, "juma + bambu + mãe", como se o facão fosse a mãe da faca pequena.
Na madrugada, embarcamos para Cuiabá. Passaremos algumas horas dormindo em cadeiras de aeroporto.

O voo Porto Velho-Cuiabá sai à 1h45. Chegamos às 3h15 e dormimos mal até o embarque para São Paulo, às 10h. No meio tempo, febre, calafrios, idas frequentes ao banheiro. Penso em malária.
No hospital, o médico suspeita de salmonela, mas testa também malária e dengue.
Enquanto espero o resultado, lembro da família isolada de Mamoriá Grande que fez contato com ribeirinhos: o que os afastou do grupo? Fome? Doença? Briga? Será que um dia vão reencontrar o grupo?
O médico me chama: os testes deram negativo para malária e dengue. Meu mal é salmonela. Bactéria de alimento contaminado, provavelmente dos muitos ovos que comemos no café da manhã e no almoço.
Volto para casa aliviado, ainda tonto. A Amazônia, desta vez, poupou-me da malária.