
Quando falamos sobre a transição energética, com que frequência associamos isso ao território? Levamos em conta onde os novos projetos serão desenvolvidos e como eles podem afetar as comunidades que vivem nessas áreas? Esse é o tipo de pergunta que um jornalismo investigativo de qualidade pode ajudar a responder.
A bolsista da Rainforest Investigations Network (RIN), Isabel Harari, começou a fazer essas perguntas enquanto investigava a Mineração Taboca, a maior produtora de estanho do Brasil, atualmente controlada por uma empresa estatal chinesa. A empresa opera a mina de Pitinga, perto do Território Indígena Waimiri Atroari, na Amazônia brasileira. O Ministério Público Federal está investigando denúncias de que a empresa contaminou cursos d’água locais com metais pesados, incluindo chumbo e arsênico.
À medida que Harari se aprofundava na história, percebeu que os impactos ambientais e sociais da mineração de minerais críticos se estendiam muito além de uma única empresa ou local. Havia uma história mais ampla a ser contada sobre terras raras, extração mineral e a crescente demanda por recursos ligados à transição energética global. O Observatório da Transição Energética foi criado para ajudar a revelar e acompanhar essas conexões, fornecendo aos jornalistas os dados necessários para investigar como a transição para uma economia mais verde está remodelando comunidades e ecossistemas.
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“Os minerais críticos não são extraídos de terras desabitadas”, disse Harari. “Há pessoas, comunidades e territórios protegidos no caminho da transição energética. Esta plataforma foi criada para tornar esses impactos visíveis. Ela reúne dados públicos que antes estavam dispersos e mostra, em um mapa claro, quais comunidades e áreas protegidas estão sob pressão e quais empresas estão por trás desses projetos.”
O Observatório da Transição Energética é uma ferramenta criada pelo Repórter Brasil, em parceria com o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e o PoEMAS (Grupo de Pesquisa em Política, Economia, Mineração, Meio Ambiente e Sociedade), para monitorar os impactos gerados por projetos de energia renovável — como usinas eólicas e solares, mineração de minerais críticos e linhas de transmissão — em territórios indígenas e quilombolas, áreas de conservação e assentamentos da reforma agrária.
A iniciativa conta com o apoio da Fundação Ford e da Rainforest Investigations Network (RIN) do Pulitzer Center.
Em um webinar recente sobre a ferramenta, realizado com o objetivo de apresentá-la a outros jornalistas, os participantes destacaram que, embora a transição para a energia renovável seja necessária, ela muitas vezes funciona como uma expansão industrial que ameaça territórios pertencentes a comunidades vulneráveis.
A plataforma foi construída por meio do cruzamento de múltiplas bases de dados públicas que não haviam sido integradas anteriormente. Essas fontes incluem a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Agência Nacional de Mineração (ANM), a Escola de Pesquisa Energética (EPE), a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o Ministério do Meio Ambiente
Ao utilizar dados de código aberto de várias agências governamentais, a ferramenta oferece uma visibilidade única: contrasta mais de 12.000 áreas protegidas em relação a milhares de projetos de energia e mineração, revelando que mais de 30% desses territórios já são afetados por atividades ligadas à transição energética e quase 60% podem ser afetados no futuro.
Os dados podem ser baixados gratuitamente e a equipe disse que sua esperança é que outros jornalistas possam usar a ferramenta para desenvolver suas próprias matérias. Então, vamos mergulhar em algumas das funcionalidades:

Neste primeiro exemplo, estou filtrando por 1) territórios indígenas que estão 2) localizados na Amazônia Legal e que têm 3) iniciativas relacionadas a parques eólicos, usinas solares, extração de minerais críticos e linhas de transmissão.
Como vi sobreposições, pude explorar os dados mais a fundo.

Esses cartões revelam o nome das terras indígenas afetadas por linhas de transmissão, quantas estão em operação e quantas estão em fase de planejamento. Todos os dados podem ser baixados.
Mas digamos que eu não esteja interessado em linhas de transmissão, e sim em mineração.

No mapa acima, estou sobrepondo 1) áreas de conservação e 2) licenças de mineração de lítio especificamente. Mas eu também poderia escolher outro mineral desta lista:

Em um cenário final, digamos que eu esteja interessado em terras raras.

Posso ver que, bem próximo à costa do Brasil, há muitas sobreposições com terras indígenas. Entre elas, a Barra Velha do Monte Pascoal. Para a qual posso então expandir o cartão:

E, a partir daí, baixar os dados para ver as três licenças que já estão em andamento e as duas que estão planejadas. Ao baixar os dados, recebo uma grande quantidade de informações, mas, apenas para dar um zoom:

Posso ver 1) o número do processo na Agência Nacional de Mineração (ANM); 2) o ano em que foi registrado; 3) a quantidade de hectares que serão necessários; 4) a fase em que o projeto se encontra atualmente; e 5) o nome da empresa que está liderando a atividade.
Os casos de uso dessa ferramenta são inúmeros. Ao cruzar dados públicos sobre linhas de transmissão, parques eólicos, parques solares e extração de minerais críticos, o Observatório atua como uma “estrela guia” para jornalistas e ativistas investigarem violações de direitos humanos e danos ambientais.
Ele também se alinha à missão da RIN de não apenas apoiar reportagens investigativas, mas também ajudar os bolsistas a ampliar o impacto de suas reportagens por meio da construção de uma infraestrutura jornalística capaz de inspirar e facilitar investigações de outros jornalistas.
