Pulitzer Center Update Julho 7, 2026
Visão única: Jovens Yanomami contam em série de podcast rotina em área com garimpo ilegal
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Apoiado pelo Fundo Semear, projeto foi construído com a participação dos indígenas em língua yanomama; trabalho contribuiu para a reflexão sobre os impactos da mineração ilegal nas comunidades da região do Paapiu, na floresta amazônica.
Uma visão única do garimpo ilegal, por dentro, relatando como funciona a rotina de trabalho, as geografias, as divisões do local e as expectativas iniciais que, em pouco tempo após a chegada, são substituídas pela realidade da falta de estrutura e de recursos. Tudo contado à própria comunidade indígena, em língua materna e formato de podcast, por jovens Yanomami que trabalharam nesses locais.
Esse é o resultado de um projeto liderado por dois acadêmicos – Hanna Limulja e o pesquisador indígena Alfredo Himotono Yanomama – realizado na região Maloca Paapiu, na Terra Indígena (TI) Yanomami, no Estado de Roraima, que contribuiu para a reflexão sobre os impactos negativos dos garimpos nas comunidades e na Amazônia.
Localizada no extremo norte do Brasil, a TI enfrenta, desde os anos 1980, a invasão predatória do garimpo ilegal, que, além do desmatamento da floresta, levou à grave crise humanitária. Os rios foram contaminados por mercúrio, afetando a qualidade da água e reduzindo a quantidade de peixes que servem de alimento aos indígenas; houve aumento de doenças infecciosas (como gripe e pneumonia) e a desnutrição infantil se agravou.
Dados oficiais mostram que cerca de 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis entre 2019 e 2022. Desde 2023, o governo federal montou um plano de desintrusão dos invasores, combatendo o garimpo ilegal e dando assistência às comunidades, mas as pressões ainda continuam.
Limulja lembra que a ideia inicial do projeto era registrar testemunhos e falas das lideranças da região do Paapiu sobreviventes da primeira invasão do garimpo, nos anos 1980. Mas depois resolveram ouvir jovens indígenas que trabalharam nesses locais atraídos pela promessa de um novo estilo de vida e voltaram às comunidades com a retirada dos garimpeiros no plano de desintrusão.
“Nos últimos anos, houve um desinteresse da juventude por temas relacionados a aspectos culturais importantes e sobretudo um desconhecimento do que havia sido a primeira corrida do ouro, que impactou consideravelmente a população da região do Paapiu. A ideia era coletar depoimentos dos anciãos que pudessem trazer as histórias dessa época. No entanto, acabamos considerando mais relevante registrar a fala dos próprios jovens que trabalharam no garimpo para compartilhar essas experiências e passar uma mensagem para os demais yanomami”, afirma Limulja.
Com um roteiro de perguntas elaborado em português e na língua yanomama, os pesquisadores realizaram nove entrevistas com jovens que trabalharam no garimpo além de captar sons da floresta, totalizando cerca de 200 minutos de gravação. Foi a primeira vez que esses jovens falaram de maneira direta sobre suas experiências, fornecendo um relato do dia a dia do garimpo e reflexões após a saída da atividade.
Atraídos inicialmente pelo desejo de ter dinheiro para comprar alimentação diferenciada ou equipamentos, como celular e caixas de som portáteis, acabavam trocando o pagamento, feito em grama de ouro, por bebidas, vestimentas e objetos de menor valor na cantina do próprio garimpo. Enquanto estavam lá, não tinham conhecimento da destruição e da contaminação provocadas pela atividade ilegal.
Contaram, por exemplo, que trabalhavam “limpando área”, ao tirar pedras e raízes dos locais, o que machucava as mãos e os pés. Aprendiam poucas palavras em português, algumas de forma errada, e tinham acesso ao “cabaré” – local para socialização, venda de bebida alcoólica e oferta do trabalho do sexo.
Em um dos episódios do podcast, o líder indígena e xamã yanomami Davi Kopenawa fez um relato exclusivo, dando um histórico da invasão garimpeira desde os anos 1980 e da destruição causada na vida da população. Liderança conhecida nacional e internacionalmente, Kopenawa também traça um panorama de sua luta por direitos e deixa um recado para incentivar a juventude yanomami a ser consciente e se comprometer com a história dos antepassados.
“Os relatos são incríveis. Trazem a perspectiva do que é o garimpo a partir da visão de jovens indígenas que trabalharam lá. É a percepção deles sobre o que é o mundo dos brancos. Em vez de público-alvo, eles passaram a ser as pessoas principais do projeto. A partir dessa experiência e narrativa, é possível ter outra dimensão do que foi o garimpo”, conta Limulja, professora do curso de Licenciatura Intercultural do Instituto Insikiran da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Parte do material coletado foi usada por Himotono Yanomama, segundo indígena yanomami a se formar na UFRR, em seu trabalho de conclusão do curso (TCC) de Licenciatura Intercultural, com habilitação em Comunicação e Artes.
Os podcasts foram compartilhados com os indígenas das comunidades afetadas por meio de áudios de WhatsApp, simulando rodas de conversa do povo Yanomami. O WhatsApp é o meio de comunicação mais utilizado atualmente nas comunidades Yanomami com acesso à internet. Essa foi uma forma de aliar novas ferramentas aos modos ancestrais, buscando disseminar e fortalecer o conhecimento.
“Relatei os resultados do trabalho para os pata thëpë [líderes nas comunidades indígenas] que ficaram satisfeitos. Toda a comunidade se envolve e quer saber dos resultados. Outros professores querem conhecer e usá-lo. O apoio do Pulitzer foi muito importante nesse processo”, diz Himotono Yanomama, que foi responsável pela aproximação e confiança dos jovens para falar sobre o assunto.
O projeto foi apoiado pelo Fundo Semear, uma iniciativa do Programa de Educação do Pulitzer Center na América Latina que oferece microbolsas para apoiar programas educativos inovadores visando ampliar olhares e debates sobre temas como justiça socioambiental, oceanos, florestas tropicais e mudanças climáticas.
Levando as histórias para mais pessoas – Himotono Yanomama diz que a próxima etapa é traduzir o material – tanto os episódios do podcast como o TCC – da língua yanomama para o português. Isso deve ser feito com a participação dos jovens entrevistados, tornando-se também uma oportunidade para que eles aprendam melhor a língua portuguesa. Ele pretende ainda fazer uma cartilha sobre os impactos do garimpo, a ser usada com os alunos da escola que está sendo construída na Maloca Paapiu.
Para a criação do podcast, houve uma capacitação técnica, com oficina de edição e de uso de equipamentos, permitindo que Himotono Yanomama aprendesse a transformar as entrevistas e os sons da floresta em um produto final. A edição dos episódios também contou com o apoio do documentarista Tomás Tancredi, que trabalha com indígenas em contextos de desapropriação de terra e mineração ilegal.
Durante o desenvolvimento do projeto, a reportagem “Nas Terras Yanomami, Jovens Indígenas Estão Deixando Suas Aldeias Para Trabalhar No Garimpo Ilegal”, publicada pelo site Mongabay, foi usada como base bibliográfica. Realizado com o apoio do Pulitzer Center, o material jornalístico traz histórias de como garimpeiros estavam, em 2022, atraindo a juventude com promessas de fortunas e afastando-a das funções de proteção das florestas, semelhante ao que aconteceu com entrevistados no podcast.
O projeto coordenado por Limulja e Himotono Yanomama teve apoio institucional da UFRR e logístico do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye'kwana, que possibilitou a entrada no território após os garimpeiros terem sido expulsos durante o Plano de Desintrusão e de Enfrentamento da Crise Humanitária na Terra Indígena Yanomami.
“Foi um processo de pesquisa, reflexão e conversa com os jovens que vai continuar rendendo frutos. O trabalho do Alfredo ficou muito rico”, complementa a professora. Limulja iniciou seu trabalho com os yanomami em 2008 e escreveu dois livros “O desejo dos outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami” e “Mari hi – A árvore dos sonhos” (conheça mais aqui).