Traduzir a página com Google

Reportagem Publication logo Dezembro 22, 2025

Emenda de senador financiou obra em estrada sem licença ambiental e invasora de terra indígena

País:

Autores:
SECTIONS

Área desmatada em trecho da rodovia AM-366, no município de Tapauá (AM). A abertura da estrada, feita sem o devido licenciamento ambiental, impulsionou a ocupação de terrenos ao longo da via para moradia, plantio e criação de gado. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.
  • Omar Aziz (PSD-AM) diz que responsabilidade técnica é de beneficiário de repasse; prefeitura fala em direito de ir e vir, e pasta não se pronuncia
  • Congressista destinou emendas para projeto de pavimentação em Tapauá (AM) considerado irregular por técnicos de órgão estadual

Tapauá (AM) e São Paulo—O trecho de 14 km já aberto da rodovia estadual AM-366 no município de Tapauá (AM) é pequeno, mas concentra irregularidades que são comuns à maioria das localidades da Amazônia Legal. Os efeitos da falta de licenciamento ambiental, da invasão de território indígena, de um lixão ilegal e do assoreamento de rios estão pelo caminho da via no interior do Amazonas, percorrido pela reportagem da Folha em novembro.

A situação em Tapauá mostra como o poder público e seus representantes em diferentes níveis de governo podem ser agentes de degradação ambiental.


Como uma organização jornalística sem fins lucrativos, dependemos de seu apoio para financiar o jornalismo que cobre assuntos marginalizados em todo o mundo. Doe qualquer quantia hoje para se tornar um Campeão Pulitzer Center e receba benefícios exclusivos!



Lotes abertos às margens da rodovia AM-366. Os assentamentos, criados no limite da divisa com a Terra Indígena Apurinã do Igarapé Tauamirim, geraram tensões com as populações tradicionais, que afirmam que os moradores vêm avançando sobre o território para caça e extração de madeira. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Início da rodovia AM-366 no município de Tapauá (AM). A estrada pretende conectar a cidade à BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Funcionários da empresa Consturb finalizam a pavimentação do primeiro trecho da rodovia AM-366. A estrada, aberta sem o devido licenciamento ambiental, pretende conectar o município de Tapauá (AM) à BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. O asfaltamento foi viabilizado por recursos de emendas parlamentares destinadas ao município pelo senador Omar Aziz (PSD-AM). Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Lote aberto às margens da rodovia AM-366. Os assentamentos, criados no limite da divisa com a Terra Indígena Apurinã do Igarapé Tauamirim, geraram tensões com as populações tradicionais, que afirmam que os moradores vêm avançando sobre o território para caça e extração de madeira. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Moradores trafegam por trecho da AM-366 onde se formou um lixão a céu aberto. A estrada, aberta sem o devido licenciamento ambiental, pretende conectar o município à BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Placa indica o início da Terra Indígena Apurinã do Igaparé São João, às margens da rodovia AM-366. A via, aberta sem o devido licenciamento ambiental, margeia a divisa de duas áreas indígenas homologadas, e a ocupação de terrenos ao longo da estrada tem gerado tensões entre moradores e populações tradicionais, que relatam aumento de invasões ao território para caça e extração de madeira. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Veja mais fotos na Folha de S.Paulo.

A verba pública para pavimentação do segmento da rodovia dentro do município veio de emenda parlamentar do senador Omar Aziz (PSD-AM) por meio do programa federal Calha Norte, à época sob o Ministério da Defesa.

A prefeitura local conseguiu os recursos apesar de não ter autorização de órgãos estaduais, inclusive dos de meio ambiente, e jogou concreto em um trecho que invadiu uma terra indígena homologada, segundo relatório de técnicos do governo amazonense.

A via tem ainda um trecho em terra batida que leva a um lixão irregular da prefeitura municipal. A parte sem pavimentação também bloqueia riachos da região, comprometendo a segurança hídrica de várias comunidades, segundo organizações indígenas.


Igarapé represado às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrou dezenas de cursos d’água e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. A Folha identificou a ausência de bueiros (estruturas tubulares que permitem a passagem da água) em diversos pontos da estrada. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Igarapé represado às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrrou dezenas de igarapés e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Igarapés represados às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrou dezenas de cursos d’água e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. A Folha identificou a ausência de bueiros (estruturas tubulares que permitem a passagem da água) em diversos pontos da estrada. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Solo seco por onde corria um igarapé às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrou dezenas de cursos d’água e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. A Folha identificou a ausência de bueiros (estruturas tubulares que permitem a passagem da água) em diversos pontos da estrada. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Igarapé represado às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrou dezenas de cursos d’água e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. A Folha identificou a ausência de bueiros (estruturas tubulares que permitem a passagem da água) em diversos pontos da estrada. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Igarapés represados às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A construção da via aterrou dezenas de cursos d’água e reduziu a vazão de afluentes que abastecem rios usados para navegação e pesca por comunidades indígenas da região. A Folha identificou a ausência de bueiros (estruturas tubulares que permitem a passagem da água) em diversos pontos da estrada. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Tapauá é o quinto maior município em extensão territorial do país, com aproximadamente 85 mil km². O núcleo urbano da localidade fica na área em que os rio Purus e Ipixuna se encontram e não tem ligação por terra com outros municípios. A distância para Manaus é de cerca de 1.200 km pela rota de navegação fluvial e de 450 km em linha reta.

Agentes de fiscalização, autoridades, ambientalistas e lideranças indígenas ouvidos pela Folha associam a farta execução de obras de abertura e pavimentação de estradas ao desmatamento ilegal e outros tipos de degradação ambiental, como o assoreamento dos pequenos e médios leitos d'água conhecidos na Amazônia como igarapés.

Essas obras em geral são acompanhadas de discursos desenvolvimentistas e violações da lei por parte de prefeituras e órgãos públicos estaduais e federais, afirmam especialistas.

Em agosto de 2021, o prefeito de Tapauá, Gamaliel Andrade (União Brasil), publicou foto ao lado do senador Aziz e anunciou em seu perfil de rede social a obtenção de verbas públicas para a pavimentação da via.

"Estive visitando o senador Omar Aziz para parabenizá-lo pelo seu aniversário e quem ganhou o presente foi o município de Tapauá. O senador irá disponibilizar recurso para pavimentação de 10 km da nossa estrada 366", postou Andrade.


Imagem gentilmente cedida por Folha de S.Paulo.

Dois meses depois, foi a vez de o parlamentar usar a sua rede social para divulgar a destinação de R$ 10 milhões a Tapauá para pavimentação e adequações de vias da cidade, com uma foto em seu gabinete em Brasília na companhia do prefeito e de vereadores de Tapauá.

Em entrevista à Folha em novembro, o prefeito confirmou a obtenção da emenda de Aziz para a pavimentação do trecho da AM-366.

"Consegui uma emenda através do senador Omar [Aziz] e pavimentamos. A gente assumiu o governo e procurou o senador em questão de pavimentar a nossa estrada", afirmou Andrade.

No final de 2021, a pavimentação em concreto de 2,4 km da via foi formalizada por meio de convênio entre a Prefeitura de Tapauá e o departamento do programa Calha Norte, no montante de R$ 5 milhões.

O primeiro repasse de R$ 1 milhão para a obra foi liberado por indicação do senador em janeiro de 2023.

Enquanto as obras estavam em andamento naquele ano, outro convênio para um novo trecho no traçado da AM-366 foi assinado pela Prefeitura de Tapauá, desta vez com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, no valor de R$ 2,8 milhões.

Mais uma vez o projeto contou com emenda do senador Aziz, por meio da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado. A primeira transferência desse convênio para o município, no valor R$ 574 mil, foi feita no último dia 2 de dezembro.

Em novembro, estava sendo realizado o trabalho de pintura de calçadas do traçado do convênio com o programa Calha Norte.


Na última década, deputados e senadores destinaram verbas públicas que levaram 1.648 máquinas pesadas aos estados da Amazônia; na foto, trabalhadores operam tratores disponibilizados para o município de Porto Walter (AC) com recursos do programa Calha Norte. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

No mesmo período, menos de 1% do montante bilionário de emendas parlamentares foi destinado ao longo de uma década para o ministério da área ambiental; na foto, trecho do Rio Juruá, no Acre, que banha a cidade de Porto Walter. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

O total de recursos para máquinas é pelo menos três vezes superior ao de ações de proteção do ambiente na região da floresta amazônica. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

Autoridades, ambientalistas e lideranças indígenas ouvidos pela Folha associam a farta distribuição dos equipamentos ao desmate e à abertura de estradas ilegais, como o trecho do Ramal Barbary, que liga o município de Porto Walter a Cruzeiro do Sul, no Acre. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

A reportagem esteve no interior do Acre e observou os impactos ambientais por trás da falta de planejamento e de critérios técnicos no uso das emendas. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

O deputado federal Zezinho Barbary (PP-AC) usa sua fatia de verbas para regularizar a obra de uma estrada aberta com desmatamento ilegal no período em que ele próprio era prefeito do município de Porto Walter. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

A falta de licenciamento ambiental e estudo do impacto ambiental causado pela obra passaram a ser investigados no fim de 2023, quando o procurador do Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) Ruy Marcelo Alencar de Mendonça abriu uma apuração.

Ele fez questionamentos ao prefeito de Tapauá e a dirigentes de dois órgãos estaduais do Amazonas, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) e a Secretaria Estadual de Infraestrutura e Região Metropolitana (Seinfra), estes últimos por uma suposta negligência na fiscalização da obra no trajeto da rodovia estadual.

Após serem notificados sobre as apurações em abril de 2024, no mês seguinte engenheiros do IPAAM e da Seinfra do Amazonas foram a Tapauá inspecionar a obra.

Segundo o relatório da fiscalização, além da falta de licenciamento e estudo de impacto ambiental, a obra invadiu a Terra Indígena Apurinã do Igarapé São João e continha uma série de irregularidades.

"A inspeção da Seinfra na rodovia AM-366 evidenciou pontos de atenção na execução da obra, caracterizando-a como irregular. A ausência de projeto básico, falhas na drenagem e a impossibilidade de avaliar a estrutura da pista comprometem a qualidade e segurança da obra", diz o relatório dos engenheiros.

Na ocasião, o IPAAM aplicou uma multa de R$ 50 mil à prefeitura e determinou a paralisação da obra até que fosse regularizada.


Lixo é queimado em aterro construído às margens da rodovia AM-366, em Tapauá (AM). A estrada, aberta sem o devido licenciamento ambiental, pretende conectar o município à BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Imagem por Henrique Santana/Folhapress.

O caso foi julgado pelo colegiado do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM) um ano depois, em abril passado. O tribunal julgou procedente a representação do Ministério Público de Contas e aplicou uma multa de R$ 13 mil ao prefeito.

Os órgãos estaduais foram absolvidos da acusação de negligência na fiscalização, mas o tribunal determinou que eles realizassem em 60 dias "a apuração de danos e degradação ambiental a saldar mediante plano de recuperação de área degradada".

Em dezembro, a Folha procurou as assessorias de imprensa do IPAAM, da Seinfra e do Governo do Amazonas para indagar se a obra já havia sido regularizada e se as determinações do TCE-AM, como a apuração do dano ambiental, já haviam sido atendidas, mas nenhum dos órgãos respondeu.

Além dos problemas constatados pelos órgãos estaduais do Amazonas, a reportagem encontrou no trecho em terra da estrada um lixão a céu aberto onde havia queima de materiais e muitos urubus.

O cacique e agricultor José Raimundo Pereira Lima, o Zé Bajaga Apurinã, 59, coordenador-executivo da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp), disse que o lixão causa grande desconforto preocupação para as comunidades indígenas que moram próximas ao local.

"No verão, o lixão pega fogo 24 horas por dia, não tem condições de passar alí, é muita fumaça. Ela invade as casas, não sei nem como as pessoas conseguem ficar alí próximo. Fora o fedor, o tanto de urubu e de mosca que aparece. Para onde o vento sopra, vai levando aquele mau cheiro", afirmou.

O prefeito de Tapauá admitiu que o lixão não obteve licença ambiental e disse que está procurando regularizar a situação.

"Aquele lixão já é histórico, é um problema que existe há muito tempo. O lixão chegou até a ficar no meio da estrada, e agora a gente já colocou um pouquinho para dentro. A nossa intenção é fazer um aterro. Fomos a cidades de Santa Catarina vendo modelos de usina de reciclagem para a gente fazer um projeto."

O cacique também apontou que obras na AM-366 causaram prejuízos principalmente para os leitos de água da região. "A estrada soterrou nascentes e cortou igarapés ao meio", disse.

A reportagem da Folha encontrou ao longo do trecho em terra da via vários sinais de cursos de água bloqueados pela estrada e a falta de obras de pontes ou bueiros que pudessem permitir o fluxo das correntes fluviais.

O que dizem senador, prefeito e ministério

Quanto à falta de licenciamento ambiental da obra e a invasão de terra indígena, a Folha contatou a assessoria de imprensa do senador Omar Aziz, que enviou nota na qual afirma que o mandato do congressista "tem como premissa a viabilização de recursos federais para atender às demandas da população do Amazonas, especialmente em municípios do interior que enfrentam grandes desafios de infraestrutura e logística".

"É importante ressaltar que a responsabilidade técnica de elaboração de plano de trabalho e o projeto básico, fases em que se insere a licença ambiental, é do ente beneficiário e a aprovação destes requisitos cabe a unidade orçamentária ou mandatária responsável pela análise. A aprovação só ocorre no atendimento integral das legislações pertinentes a execução de convênios", segundo a nota.

Já o prefeito de Tapauá disse: "chegou a questão burocrática de documento, de multa. A nossa intenção quanto governo foi dar direito ao cidadão de ir e vir, tanto branco quanto indígena".

A reportagem procurou o Ministério da Defesa do governo Lula (PT), responsável pelo convênio do Programa Calha Norte, mas o órgão não se manifestou sobre as irregularidades na AM-366.

RELATED TOPICS

yellow halftone illustration of an elephant

Topic

Environment and Climate Change

Environment and Climate Change
teal halftone illustration of a young indigenous person

Topic

Indigenous Rights

Indigenous Rights
yellow halftone illustration of two people standing back to back

Topic

Land Rights

Land Rights
a yellow halftone illustration of a truck holding logs

Topic

Rainforests

Rainforests

RELATED INITIATIVES

logo for the Rainforest Investigations Network

Initiative

Rainforest Investigations Network

Rainforest Investigations Network

Support our work

Your support ensures great journalism and education on underreported and systemic global issues