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Reportagem Publication logo Outubro 26, 2025

Deputado de SP vira campeão de emenda para pasta ambiental turbinando ONG de castração de pets

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  • Bruno Ganem destina R$ 16,7 mi a projeto de entidade do Rio e empresta sobrenome para eleições
  • Instituto afirma que atuação é exclusivamente técnica, com fiscalização de ações de 'castramóvel'

São Paulo e Rio de Janeiro—O deputado federal Bruno Ganem (Podemos-SP), autor da emenda parlamentar com o maior valor reservado ao ministério da área ambiental desde 2021, no montante de R$ 16,7 milhões, direcionou a verba para um projeto de um instituto de defesa animal com sede no Rio de Janeiro e diz que a instituição deverá realizar 60 mil castrações de cães e gatos em cidades paulistas.

Segundo o congressista, o valor foi separado no Orçamento federal (empenhado, no jargão técnico) a um só instituto porque um despacho do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos dos Animais, vinculado à pasta da área ambiental, determinou que cada parlamentar só poderia endereçar emendas a uma ONG, por limitação de capacidade do departamento em celebrar novos convênios.


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Deputado Bruno Ganem (Podemos-SP) ao lado de Greicy Taranto, presidente do Instituto Golias, em anúncio no Instagram divulgando 10 mil castrações em Jundiaí com verba de emendas parlamentares ao ambiente. Imagem por Instituto Golias/Instagram.

O montante destinado a esse programa corresponde a quase toda a verba de livre alocação do deputado, já que metade do valor de R$ 37,8 milhões a que cada parlamentar tem direito em emendas precisa ser investido em saúde.

"Sinceramente, se pudesse usar a verba da saúde [para castração de cães e gatos], usaria também", afirmou Ganem em entrevista à Folha.

No dia 11 de outubro o Instituto Golias publicou em rede social um post em que afirma que começou a fazer entrega de 10 mil castrações na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, viabilizadas com recursos de emenda.

"O Instituto Golias dará um grande passo na causa animal onde na cidade de Jundiaí, sob emenda parlamentar do deputado Bruno Ganem, juntamente com o prefeito Gustavo Martinelli, faremos a entrega de 10 mil castrações, com isso ganham nossos animais", escreveu o perfil.

O deputado afirmou que as castrações também ocorrerão em municípios como Campinas, Sorocaba, Itapetininga, Taboão da Serra, Ipojuca e Embu das Artes, além da capital paulista.

Nas últimas eleições municipais, Campinas e Sorocaba elegeram vereadores da causa pet que pegaram o sobrenome Ganem "emprestado" do deputado —Herbert e Rodolfo Ganem, respectivamente. Além deles, Lucas Ganem foi eleito vereador em Belo Horizonte e Simone Ganem, em São Paulo. Ganem é natural de Indaiatuba.

O deputado confirma que todos que usam o sobrenome são pessoas muito próximas de seu mandato e convívio pessoal. A mãe de Bruno, Clarice Ganem, foi eleita deputada estadual por São Paulo em 2021.

A presidente do Instituto de Proteção e Defesa dos Animais Eu Sou Testemunha do Golias, Greicy Taranto, também é dona de duas clínicas veterinárias no Rio de Janeiro.

Um dos estabelecimentos fica em Sepetiba, bairro da zona oeste carioca a 425 km da capital paulista. A reportagem permaneceu por 30 minutos em frente ao endereço, na tarde de uma quinta-feira, e observou atendimento veterinário a um cão. Dentro da unidade também havia pássaros.

A outra unidade veterinária está localizada em uma avenida em Santa Cruz, na mesma região. A identificação do hospital Golias é a pintura em um muro. Nas redes, o espaço mostra cuidados a cães, gatos e outros animais, como cavalos.

Um dos funcionários afirmou que as unidades veterinárias particulares financiam o trabalho do instituto, que realiza resgates, reabilitação e adoção de animais.


Muro da unidade veterinária Hospital Golias na avenida João 23, em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro. Imagem por Eduardo Anizelli/Folhapress.

Em resposta à reportagem, a responsável pelo instituto, Greicy Taranto, afirmou que "o Instituto Golias nunca recebeu qualquer verba proveniente de emendas parlamentares".

A entidade assinou termo de colaboração com o MMA para implantação de programa de castração e a emenda está em fase de empenho, com recursos reservados, mas ainda não desembolsados, segundo os portais de dados orçamentários oficiais.

Greicy afirmou que "o papel da instituição é exclusivamente técnico, responsável pela coordenação e fiscalização das ações do Castramóvel [veículo nos quais esterilizações são realizadas]" em São Paulo.

A publicação faz agradecimentos a Flávio Ganem, ex-secretário municipal de Proteção e Defesa dos Animais do Rio. Flávio permaneceu no cargo de 2023 a 2024. Nas últimas eleições municipais foi candidato a vereador pelo Avante, mas não foi eleito. As redes sociais de Flávio têm vídeos em que registra resgates de animais com Greicy.

Flávio foi procurado por mensagem, mas não respondeu.

O deputado Bruno Ganem citou grande proximidade com Flávio, que também adotou seu sobrenome na carreira política. Questionado se Flávio teve influência na escolha do Instituto Golias para receber os recursos, o parlamentar confirmou. "Não tenha dúvidas de que ele participou muito da discussão, mas a decisão final foi minha", afirma.

Em dois vídeos da castração em Jundiaí, Bruno Ganem, ao lado de Greicy, afirma que o instituto prevê 60 mil castrações no estado de São Paulo.


Tutora com cão deixa clínica veterinária Hospital Golias, em Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro. Imagem por Eduardo Anizelli/Folhapress.

"Recebi com grande alegria o convite para gerir e fiscalizar a equipe de castração que atuará em todo o estado de São Paulo", disse Greicy à reportagem.

O cadastro do instituto Eu Sou Testemunha do Golias na Receita Federal tem data de abertura em 2017, com atividades como restaurante e similares, armazéns gerais, cantina, lavanderias e depósito de mercadorias.

Greicy foi questionada sobre o rol de atividades no CNPJ, mas não respondeu. O deputado afirmou desconhecer que o instituto apresente outras atividades no registro da Receita e atribuiu isso a uma dificuldade de caracterização formal das atividades de ONGs voltadas a animais.


Conheça o ramal Barbary, estrada construída ilegalmente com recursos de emendas parlamentares no interior do Acre


Trecho do ramal Barbary, que liga o município de Porto Walter a Cruzeiro do Sul, no Acre. A estrada, construída com recursos de emendas parlamentares, foi feita sem o devido processo de licenciamento ambiental e chegou a invadir a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

O cacique José Francisco da Silva Alves, liderança da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, conduz barco no rio que dá nome ao seu território. Segundo os indígenas, o Igarapé Preto teve diminuição de vazão e de peixes após a construção do ramal Barbary, estrada feita ilegalmente com recursos de emendas parlamentares que atravessou a Terra Indígena e soterrou afluentes do igarapé. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

O cacique José Francisco da Silva Alves, liderança da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, em Cruzeiro do Sul (AC). Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

O cacique José Francisco da Silva Alves, liderança da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, em Cruzeiro do Sul (AC) mostra mapa do território. A construção do ramal Barbary (linha vermelha), estrada feita sem o devido licenciamento ambiental e posteriormente interditada pelo Ministério Público, gerou impactos sociais e ambientais para a comunidade. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.
O deputado federal Zezinho Barbary, do PP do Acre, em seu gabinete em Brasília. O parlamentar era prefeito do município de Porto Walter, no interior do estado, quando iniciou a abertura do ramal Barbary. A estrada, interditada pelo Ministério Público Federal por irregularidades no processo de licenciamento ambiental, foi construída com recursos de emendas parlamentares. Imagens por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

A cacica Esmeralda Silva Moreira (88), liderança da Aldeia Nova Vida 2, na Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, em Cruzeiro do Sul (AC), denunciou a violação de seu território pelo ramal Barbary ao Ministério Público Federal. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Aldeia Extrema, na Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto, em Cruzeiro do Sul, no Acre. A comunidade foi uma das impactadas pela construção do ramal Barbary. Após a interdição da via pelo Ministério Público Federal, lideranças indígenas afirmam que passaram a receber ameaças de moradores da região. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Trecho do ramal Barbary, na fronteira da Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto. Além do aumento de invasores buscando caça e transitando pela território indígena, lideranças alegam que a obra assoreou nascentes, lagos e igarapés utilizados para pesca e navegação. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Trecho do ramal Barbary, que liga o município de Porto Walter a Cruzeiro do Sul, no Acre. A estrada, construída com recursos de emendas parlamentares, foi feita sem o devido processo de licenciamento ambiental e chegou a invadir a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Outdoor em Porto Walter, no Acre, divulga investimentos ligados ao deputado federal Zezinho Barbary, ex-prefeito da cidade. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Luiz Nukini, da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), troca hélice de barco utilizado por indígenas da TI Jaminawa do Igarapé Preto. Segundo lideranças locais, o Igarapé Preto teve diminuição de vazão e de peixes após a construção do ramal Barbary, estrada feita ilegalmente com recursos de emendas parlamentares que atravessou a Terra Indígena e soterrou afluentes do rio. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Luiz Nukini, da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), mostra placa instalada em estrada aberta ilegalmente pela prefeitura de Porto Walter, no Acre. A via, construída com recursos de emendas parlamentares, foi feia sem o devido processo de licenciamento ambiental e cruzou a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Trabalhadores operam tratores disponibilizados para o município de Porto Walter (AC) com recursos do programa Calha Norte. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Trecho do ramal Barbary, que liga o município de Porto Walter a Cruzeiro do Sul, no Acre. A estrada, que tem como principal padrinho político o deputado federal Zezinho Barbary (PP), foi construída com recursos de emendas parlamentares sem o devido processo de licenciamento ambiental e chegou a invadir a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.
O ex-prefeito de Porto Walter, Neuzari Correia Pinheiro, que governou o município por dois mandatos pelo Partido dos Trabalhadores, em sua propriedade. Pinheiro é opositor da atual gestão, liderada por Sebastião Nogueira de Andrade (PP), aliado do ex-prefeito e hoje deputado federal Zezinho Barbary, também do Progressistas. Imagens por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Trecho do Rio Juruá, no Acre, que banha a cidade de Porto Walter. No período da seca, o transporte fluvial na região fica prejudicado, justificativa usada por políticos locais que defendem a abertura de vias terrestres para ligação do município com outras cidades. Imagem por Henrique Santana/Folhapress. Brasil, 2025.

Erramos: o texto foi alterado: A cidade em que nasceu o deputado Bruno Ganem (Podemos-SP) é Indaiatuba, e não Itapetininga, como constava em versão anterior do texto.

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