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Reportagem Publication logo Maio 9, 2024

Autoritários: Como Maduro transformou a Venezuela chavista em ditadura

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A podcast examines authoritarian leaders around the world.

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Episódio bônus do podcast fala da repressão do regime e do exílio de milhões de venezuelanos


SÃO PAULO Tem muita criança que não gosta de ir para a cama —é medo do escuro, de fantasma, do bicho papão. Mas tem adulto que também sente medo nessa hora. Foi assim por um período com o ativista venezuelano Gabriel Sguerzi, preso político da ditadura de Nicolás Maduro que ficou encarcerado por mais de dois anos em isolamento quase total. Naquela época, Sguerzi tinha muitos medos. Um deles era o de sonhar.

Nos sonhos ele se encontrava com a família e viajava com os amigos. Mas, quando abria os olhos, dava de cara com um pesadelo. Ele estava em uma prisão aterrorizante, conhecida como La Tumba –um espaço cinco andares abaixo do solo, no prédio do órgão de inteligência nacional, o Sebin.

Detido em 2014, Sguerzi é um dos 15 mil presos políticos do regime Maduro desde que ele chegou ao poder em 2013, segundo a ONG Foro Penal.

O episódio bônus do podcast Autoritários explica como Maduro, sucessor do chavismo, transformou a Venezuela em uma ditadura, e conta as histórias de políticos e ativistas que foram alvo da repressão e tiveram que se exilar.

Hugo Chávez governou o país por 14 anos com alta popularidade. Ele não precisou, de forma geral, lançar mão da repressão violenta e, por isso, focou em táticas de manipulação, como a maioria dos líderes autoritários tratados no podcast. Maduro, porém, assumiu em meio a um cenário muito menos favorável economicamente e sufocou a insatisfação popular para se manter no poder.


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Ele se alinhou a táticas autoritárias de líderes do século passado e, a poucos meses das próximas eleições presidenciais, marcadas para julho, tirou do páreo a principal figura da oposição, tentando minar qualquer chance real dos adversários.

A série narrativa em áudio da Folha se debruçou sobre o processo de crise democrática em curso no mundo. Cada episódio contou sobre um líder autoritário contemporâneo: Narendra Modi (Índia)Viktor Orbán (Hungria)Donald Trump (Estados Unidos)Jair Bolsonaro (Brasil)Nayib Bukele (El Salvador) e Daniel Ortega (Nicarágua).

Foram oito meses de pesquisa, sete viagens e dezenas de entrevistas com políticos, pesquisadores, jornalistas, ativistas e, principalmente, cidadãos que têm suas vidas afetadas diretamente pelo autoritarismo.

Apresentação, roteiro, produção e reportagem do Autoritários foram feitos pela repórter Ana Luiza Albuquerque. Há oito anos na Folha, Ana Luiza trabalha na editoria de política e é mestre em jornalismo político pela Universidade Columbia (EUA).

A edição de som do projeto é de Raphael Concli. A coordenação é de Magê Flores e Daniel Castro, a produção no roteiro é de Victor Lacombe e a supervisão é de Gustavo Simon. A identidade visual é de Catarina Pignato.

Os episódios podem ser ouvidos no site da Folha e nas principais plataformas de áudio.


LEIA A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO BÔNUS: NICOLÁS MADURO E O AUTORITARISMO À MODA ANTIGA NA VENEZUELA

Ana Luiza Albuquerque: Antes de a gente começar, um aviso: esse episódio contém relatos de tortura e tentativa de suicídio.

Tem muita criança que não gosta de ir para a cama. É medo do escuro, do bicho papão… Mas tem adulto que também tem medo dessa hora. Foi assim por um tempo com o Gabriel Sguerzi, um ativista venezuelano que hoje vive exilado na Espanha. Ele ficou encarcerado por mais de dois anos em isolamento quase total, como um preso político da ditadura de Nicolás Maduro. Naquela época, o Gabriel tinha muitos medos. Um deles era o de sonhar.

Gabriel Sguerzi: Es muy feo, es muy feo. O sea, llega un momento donde da miedo soñar.

Ana Luiza Albuquerque: Nos sonhos o Gabriel se encontrava com a família, viajava com os amigos… Mas quando abria os olhos, dava de cara com a realidade. E a realidade é que ele estava em uma prisão aterrorizante, conhecida como La Tumba –um espaço cinco andares abaixo do solo, no prédio do órgão de inteligência nacional, o Sebin.

O Gabriel foi levado para a Tumba em 2014, quando ele já estava envolvido com o ativismo estudantil havia alguns anos. Ele inclusive já tinha sido preso no governo do antecessor de Maduro, Hugo Chávez, quando ele e alguns colegas lançaram a campanha "Chávez Miente". Nessa época, eles denunciaram que Chávez estava manipulando dados socioeconômicos, como estatísticas de segurança e inflação. Gabriel foi acusado de divulgar informações falsas e preso um dia antes das eleições parlamentares de 2010. Ele foi solto logo depois.

Foi em 2014 que a perseguição contra ele aumentou. Naquele ano, o Gabriel participou de uma mesa da ONU na Colômbia e fez um discurso duro contra as Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, falando das vítimas venezuelanas do conflito armado –especialmente na fronteira. Isso foi bem na época que o governo do então presidente colombiano Juan Manuel Santos negociava um acordo de paz com o grupo –e Maduro teve um papel importante nesse processo. Daí o Gabriel começou a circular pelos meios ativistas colombianos, juntando muita gente para discutir esse assunto e chamando a atenção do governo de Santos.

Gabriel Sguerzi: Nosotros hemos sido muy intrépidos y muy públicos. Nosotros no nos gusta tener una agenda oculta. Entonces todo lo hacíamos público.

Ana Luiza Albuquerque: Ele promoveu essas atividades com um amigo, o Lorent Enrique Saleh, um ativista estudantil bem conhecido na Venezuela, que também estava morando na Colômbia.

No dia 4 de setembro de 2014, o Lorent foi deportado do país com br em um decreto que autoriza a expulsão de estrangeiros que atentem contra a segurança nacional. Um dia depois, foi a vez do Gabriel ser expulso pelo mesmo motivo. Não ficou claro nos comunicados do governo Santos qual ameaça ele representava para o país.

Ele foi detido por agentes da inteligência colombiana depois de dar uma entrevista à imprensa. Esses agentes entregaram ao Gabriel um documento que dizia que por ordem presidencial ele estava vetado da Colômbia por dez anos. Ele não pôde falar com ninguém, nem com advogados. Os policiais o colocaram num carro e o levaram pra uma ponte na fronteira com a Venezuela, onde o entregaram às autoridades do país.

Gabriel Sguerzi: Simplemente me montaron una van super custodiada con policías, con motorizados, con todo, hasta el puente Simón Bolívar y hacen la entrega al Sebin.

A partir dali, toda vez que o Gabriel acordasse de um sonho, ele se lembraria de que vivia um pesadelo.

Ele tinha se tornado um dos 15 mil presos políticos que o regime Maduro acumulou desde que chegou ao poder em 2013, segundo a ONG Foro Penal. Maduro é herdeiro do Chavismo, mas assumiu o país sob um contexto muito menos favorável economicamente.

Com alta popularidade, Chávez em geral não precisava lançar mão da repressão violenta, focando em táticas de manipulação, como a maioria dos líderes que a gente tratou neste podcast. Maduro, por outro lado, precisava sufocar a insatisfação popular para se manter no poder, e por isso se alinhou às táticas autoritárias de líderes do século passado. Onze anos depois, ele segue atuando assim.

A poucos meses das próximas eleições presidenciais, marcadas para julho, ele tirou do páreo a principal figura da oposição, tentando minar qualquer chance real dos adversários.

Ana Luiza Albuquerque: Eu sou Ana Luiza Albuquerque e esse é um episódio bônus do Autoritários: um podcast da Folha que investiga líderes contemporâneos que ameaçam a democracia e as conexões entre eles. O projeto tem apoio do Pulitzer Center on Crisis Reporting.

Ana Luiza Albuquerque: Da ponte na fronteira, o Gabriel foi levado a Caracas, a capital venezuelana, em um avião com funcionários do governo fortemente armados. Eles não davam nenhuma explicação, só diziam que o que estava acontecendo era culpa dele, que ele não deveria estar falando mal do governo.

Gabriel Sguerzi: Lo único que me decían en el avión es que quién me mandaba a mí a ser activista, a estar hablando mal del gobierno? Que esos son problemas que yo me busco.

Ana Luiza Albuquerque: Chegando a Caracas, ele foi levado de carro para o prédio do Sebin, o Serviço de Inteligência da Venezuela. O veículo desceu os cinco andares do estacionamento até chegar à Tumba. A primeira coisa que ele viu foi uma porta enorme, que parecia de um cofre. Daí tiraram fotos dele, o obrigaram a ficar sem roupa e passar por sete portas com detectores de metal.

Já na cela, entregaram a ele um uniforme de cor cáqui. Nesse tempo todo, ninguém falava nada. Ele diz que a primeira coisa que escutou foi o choro de alguém. Um choro que pareceu familiar.

Gabriel Sguerzi: Yo pregunto: Enrique, eres tú?

Ana Luiza Albuquerque: Então ele perguntou: Enrique, é você? Enrique, de Lorent Enrique, o amigo que tinha sido expulso da Colômbia um dia antes dele.

Gabriel Sguerzi: Y cuando me escucha lo que dice: Gabo! Gabriel! Y se pone a llorar y yo me pongo a llorar.

Ana Luiza Albuquerque: Era mesmo o Lorent, a quem ele só podia escutar. As celas ficavam uma ao lado da outra. O Gabriel conta que o lugar parecia uma clínica, ou um laboratório. As luzes e as paredes eram brancas, o chão era de azulejo preto e fazia muito frio. Não tinha nenhuma comunicação com o lado de fora, e os agentes penitenciários não falavam quase nada. Era um lugar totalmente sem ruídos. Só que ao mesmo tempo que ele sentia que estava isolado, abandonado, dentro da cela tinha uma câmera acompanhando todos os movimentos dele. Ou seja, tinha solidão, mas não privacidade.

Gabriel Sguerzi: Ellos logran separar la soledad, la soledad de la privacidad y es una sensación muy extraña, o sea, muy dificil de explicar.

Ana Luiza Albuquerque: O Gabriel fala que ali na Tumba se aplicava um tipo de tortura psicológica que bagunça os sentidos e o senso de identidade do prisioneiro. Não tinha, por exemplo, relógios ou janelas, então ele nunca sabia que horas eram ou o quanto ele tinha dormido. Os carcereiros não respeitavam as ordens das refeições, ou seja, podiam servir o café da manhã à noite pra bagunçar a cabeça dos presos. Também não tinha espelhos, e o Gabriel diz que foi se esquecendo da própria imagem.

Gabriel Sguerzi: Hay cosas muy, muy, muy extrañas que yo sentía, que son raro de explicar. Por ejemplo. No verte la cara. Parece mentira, pero cuando tú llevas mucho tiempo sin verte la cara, se te olvida como eres.

Ana Luiza Albuquerque: Com o tempo, o Gabriel foi perdendo a noção do que era real ou não.

Gabriel Sguerzi: Habían cosas que yo no podía saber si eran ilusiones o no. Es como… Realmente estoy aquí adentro? Realmente estoy despierto? Estoy dormido? Estoy muerto?

Ana Luiza Albuquerque: E ele chegou a se cortar só pra sentir qualquer coisa.

Gabriel Sguerzi: Había momentos donde yo me tenía que infligir dolor. Tenía que golpearme, tenía que golpear las paredes para sentir algo.

Ana Luiza Albuquerque: Ainda que ele não conseguisse ver o Lorent, a presença do amigo na Tumba ajudou o Gabriel a atravessar esse período. Eles tinham que ter muito cuidado com o que falavam, já que tudo estava sendo monitorado. Mas sobre algumas coisas eles conseguiam conversar. E também choravam juntos. Um dos rituais era acordar e contar para o outro sobre o que sonharam. Falavam também sobre temas pessoais, como a família, e até sobre cultura pop.

Em uma época, chegaram até a inventar que tinham uma emissora de rádio, simulando entrevistas entre eles.

Gabriel Sguerzi: Entonces él tenía un programa, yo tenía un programa y yo lo entrevistava a él y me entrevistava a mí.

Ana Luiza Albuquerque: Como eles tinham medo de falar sobre política, acabavam debatendo no programa imaginário temas mais leves.

Gabriel Sguerzi: Como nos daba miedo hablar temas políticos porque es pueda ser usado en nuestra contra, hablamos otros temas, sabes? Hablábamos del amor. De cosas por el estilo.

Ana Luiza Albuquerque: O Gabriel acredita que o objetivo da tortura psicológica era fazer com que eles prestassem depoimentos falsos contra figuras da oposição. Ele conta que em vários momentos uma procuradora chegou na Tumba pressionando os dois a prestar depoimento ligando líderes opositores a atos de terrorismo, em troca de benefícios carcerários.

Segundo o Gabriel, ela dizia que estava ali em nome da procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, que em 2017 rompeu de vez com o regime e deixou o país. Eu conversei com a Luisa, que negou qualquer tipo de envolvimento nessa trama ou na perseguição contra a oposição durante os 10 anos em que ficou no cargo.

Ainda que o Gabriel e o Lorent se apoiassem na prisão, a situação naquele primeiro ano foi muito pesada, e o Lorent chegou a tentar se matar. Daí eles fizeram uma greve de fome, que durou 18 dias e chamou bastante atenção da mídia. O Gabriel diz que eles queriam deixar claro que morreriam, mas que não prestariam informações falsas.

Gabriel Sguerzi: Queríamos hacer entender de que nosotros éramos capaces de morirnos antes de colaborar con ellos en lo que ellos querían.

Ana Luiza Albuquerque: Com essa greve eles conseguiram alguns benefícios, tipo livros, papel e lápis de cor. Uma coisa que incomodava muito o Gabriel era a ausência de cores dentro da Tumba, já que praticamente tudo era branco. Ele lembra de um fato curioso: depois da greve deram uma edição da revista National Geographic pra ele, super colorida, com imagens de animais… aquele foi um momento feliz pro Gabriel.

Gabriel Sguerzi: Fue sorprendente porque después de estar tanto tiempo viendo todo blanco que tú veas fotos de animales, fotos de pirámide, cosas así. Fue muy dichoso.

Ana Luiza Albuquerque: Nesse tempo todo, os amigos e familiares do Gabriel e do Lorent estavam denunciando a tortura que eles estavam sofrendo. O Gabriel conta que, depois de dois anos na prisão, uma comissão do Vaticano foi à Venezuela para investigar temas como a fome e a repressão, o que incluía uma visita à Tumba. Então, segundo ele, o governo Maduro tirou os dois de lá e fechou o espaço, para fingir que nada acontecia ali.

Eles foram transferidos para o Helicoide, uma outra prisão com muitos relatos de tortura, principalmente física. O Gabriel diz que o Helicoide é o oposto da Tumba: um espaço superlotado, sujo, barulhento.

Gabriel Sguerzi: Un espacio donde habían más de 300 personas, donde siempre había ruido. Era un espacio muy sucio. Habían ratas, cucarachas.

Ana Luiza Albuquerque: A mudança para o Helicoide foi muito difícil para o Gabriel, porque ele já estava acostumado ao isolamento quase total. Chegando lá todo mundo fazia várias perguntas para ele, querendo saber como as coisas funcionavam na Tumba. Ele não tinha mais traquejo social.

Gabriel Sguerzi: De estar tanto tiempo aislado se te apaga el como el motor de socializar. Hola. Cómo estás? Cómo te ha ido? Que tal esto? Eso se te apaga porque no lo utilizas.

Ana Luiza Albuquerque: O Gabriel se lembra de muita gente gritando e chorando no Helicoide, e diz que as mulheres sofriam muito, inclusive por terem sido vítimas de abusos sexuais.

O banheiro das visitas, chamado de bañito, era usado como espaço de tortura nos dias em que não tinha visitação. Uma vez no bañito os agentes colocaram uma sacola plástica na cabeça de um dos presos, que era menor de idade. Depois espirraram spray inseticida dentro da sacola, para que ele se asfixiasse.

Era esse tipo de violência escancarada que acontecia ali. Certo dia um dos presos voltou à cela com marcas seríssimas de agressão, e todo mundo se revoltou. Começou um grande motim. Os presos arrombaram as celas e tomaram conta do lugar por vários dias. Aí começaram as negociações para o governo retomar o controle, e alguns dos detidos foram sendo liberados. Um agente passava anunciando os nomes, e Gabriel foi chamado.

Mas mesmo depois de ter passado mais de dois anos no Helicoide, a sensação não foi só de alívio quando ele foi solto. Gabriel se sentia culpado porque vários companheiros continuaram presos, inclusive o Lorent, que só saiu meses depois.

Gabriel Sguerzi: Y era como que la única persona que confiábamos era en nosotros. Sabes? Y yo irme de allí y que Lorent se quedaba solo, era muy difícil, muy dificil. Yo no puedo evitar sentirme culpable.

Ana Luiza Albuquerque: O Gabriel foi solto em 2018, depois de quatro anos preso. Ele conseguiu voltar para a Colômbia, onde estudou artes plásticas –pintar foi um hobby que nasceu na Tumba, quando ele e o Lorent lutaram pelo acesso a papeis e lápis de cor. Em 2022, depois da vitória do ex-guerrilheiro Gustavo Petro na Colômbia, Gabriel decidiu se mudar para Madrid, onde a gente se encontrou para essa entrevista. Ele diz que não perdeu o direito ao asilo na Colômbia, mas que tinha medo que a segurança dele ficasse em risco sob um governo de esquerda. E, ainda hoje, a culpa o persegue.

Gabriel Sguerzi: O sea, es sentirte culpable porque hoy salistes a comer, sabes?

Ana Luiza Albuquerque: Ele aponta para a janela e diz que não consegue deixar de pensar em quem está no Helicoide e não consegue ver o sol.

Gabriel Sguerzi: Es tener esta ventana y ver el sol y saber que hay gente encerrada en el Helicoide que no tiene acceso al sol.

Ana Luiza Albuquerque: O Gabriel ainda vive num estado hiperalerta, sempre achando que alguém está atrás dele. O trauma continua latente. As lembranças da Tumba reaparecem nas menores coisas. Tipo quando ele lava as mãos com água fria e lembra de como a água era gelada na prisão.

Acima de tudo, ele deu de cara com a banalidade do mal, e isso mexeu muito com a cabeça dele. Ele diz que percebeu como pessoas com vidas aparentemente comuns, que têm famílias, vão ao mercado e saem de férias, podem ser absolutamente más. Depois de torturar alguém, por exemplo, um agente penitenciário pode se sentar num bar como se nada tivesse acontecido. Esse tipo de pensamento perturba o Gabriel.

Gabriel Sguerzi: Tú puedes estar en un bar y al lado tuyo es un torturador, sabes? Y tú sabes que es posible y que ese tipo, después de torturar a alguien, puede ir a un bar a tomarse una cerveza lo más tranquilo del mundo.

Ana Luiza Albuquerque: Ele tem levado uma vida tranquila em Madri. Conseguiu um bom emprego, ficou noivo há pouco tempo. Mas o Gabriel também diz que é outra pessoa depois de ter ficado preso, e que na prisão ficou enterrada uma versão dele do passado.

Gabriel Sguerzi: Una parte de ti nunca deja de estar allá adentro. Es como que lo que me hicieron, lo que pasó, es como que quedó enterrado un Gabriel ahí que no va a salir nunca.

Ana Luiza Albuquerque: Não dá para falar de Nicolás Maduro sem falar de Hugo Chávez.

E não dá para falar de Chávez, e da importância da figura dele, sem falar do cenário anterior na Venezuela. A gente já volta para o presente, mas em 1958 o ditador Marcos Pérez Jiménez foi derrubado, e os três principais partidos do país firmaram um pacto, conhecido como o Pacto de Punto Fijo. O objetivo era organizar eleições justas e garantir estabilidade democrática a partir dali.

Mas com o tempo muita gente ficou insatisfeita, porque o poder tinha sido dividido entre poucos, ficando restrito às elites. Por 30 anos, dois desses partidos se revezaram no governo, com uma agenda de centro ou centro-direita. Os mais pobres se viam excluídos. E aí apareceu Hugo Chávez.

Paulo Velasco: Hugo Chávez é um importante nome na política latino-americana, uma liderança marcante não só para a Venezuela, mas para os países da região, com uma agenda muito particular no sentido de tentar revolucionar a política em seu país, lutando, conforme ele dizia, contra desigualdades conduzidas e consagradas ao longo de décadas.

Ana Luiza Albuquerque: Esse é o Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e especialista em Venezuela.

Paulo Velasco: E o Chávez tenta reverter essa tradição, assumindo a condição de um líder comprometido com essas categorias menos favorecidas na história do país e, do ponto de vista da política externa, tentando assumir uma liderança regional latino-americana, colocando-se como um ponto de resistência contra os Estados Unidos, contra o Império, como ele chamava.

Ana Luiza Albuquerque: Chávez nasceu em 1954, em uma pequena cidade a mais ou menos 500 km de distância de Caracas. Filho de professores, com 17 anos ele entrou na Academia Militar, e com o passar dos anos chegaria a se tornar tenente-coronel. No começo dos anos 1980, ele fundou ao lado de alguns companheiros militares o Movimento Bolivariano Revolucionário 200, conhecido como MBR-200. Esse grupo era inspirado nas ações de Simón Bolívar, o revolucionário venezuelano que teve papel central na independência de países latino-americanos no século 19.

Chávez ganhou uma grande projeção nacional em 1992, quando tentou dar um golpe de Estado contra o presidente Carlos Andrés Pérez e acabou preso por dois anos. Em 1998 ele foi eleito presidente, cargo que manteve até morrer, em 2013. Ele tinha uma orientação populista, apostando no discurso do povo contra as elites e se colocando como a voz dos venezuelanos.

Paulo Velasco: Claramente, ele refletia práticas ditas populistas, porque ele sempre tentava não só falar uma linguagem mais diretamente do povo, mas muitas vezes propunha ou apresentava soluções muito simplistas para problemas muito sérios. Soluções quase que improvisadas para questões estruturais.

Ele tinha o dom da palavra, uma retórica fácil. Falava muito bem, era muito histriônico...

[Hugo Chávez] Vayanse al carajo, yankees de mierda! Que aqui hay un pueblo digno!

Paulo Velasco: ...muito apelativo, sempre, nas suas falas e discursos, como é característico do populismo. Não importa se de direita ou de esquerda.

[Hugo Chávez] Los hijos de Guaicaipuro, los hijos de Tupac Amaru. Y estamos resueltos a ser libres!

Ana Luiza Albuquerque: Chávez também se tornou um defensor de um conceito de democracia mais direta, participativa, com a realização de muitos referendos –prática que continuou no governo Maduro. Isso não quer dizer, necessariamente, que esse tipo de democracia seja mais saudável ou que funcione melhor, como explica o Paulo.

Paulo Velasco: Aqueles que dizem "Ah, a Venezuela era uma grande democracia na época do Chávez, porque ele fez referendo um pouco para tudo", isso não é um indicativo seguro, na verdade. Fazer referendo de maneira reiterada, com um povo cooptado, a partir de um regime nitidamente de orientação populista, em que muitas vezes o povo se vê seduzido por aquele líder a partir de concessões, sobretudo, de caráter assistencialista, isso não necessariamente indica, efetivamente, que aquela decisão era de caráter representativo. Sobretudo, considerando um estado em que muitas vezes parte da população é silenciada e aqueles que se opõem ao regime têm medo de participar desses referendos.

Ana Luiza Albuquerque: Em 2002, Chávez foi sequestrado por uma ala de militares, e teve o poder usurpado por dois dias, numa tentativa de golpe.

Paulo Velasco: Grupos mais elitistas, grupos ligados ao empresariado, com apoio de parte dos militares, da própria Igreja Católica, acabaram liderando de fato esse golpe que tirou Chávez do poder. Durante quase três dias ele esteve alijado do Palácio Miraflores, foi preso e o país foi governado pelo Pedro Carmona, um empresário venezuelano que presidia a Fedecámaras, uma espécie de Fiesp venezuelana. E durante esse período curto de tempo, o país foi governado pelo Pedro Carmona. Então foi um golpe de Estado da pior espécie, que combinou um conjunto de forças sociais venezuelanas, todas elas ligadas a um passado que estava tentando ser superado pelo Chávez.

Ana Luiza Albuquerque: Houve protestos em massa, uma grande pressão da comunidade internacional e a ação de militares aliados dele. Então Chávez foi reconduzido ao poder.

Paulo Velasco: É uma oposição venezuelana que não pode ser hipótese alguma idealizada. Uma oposição que enfiou os pés pelas mãos, uma oposição que não aceitava nem a liderança de Chávez, porque ele ia muito na contramão do estabelecido, do status quo na Venezuela, estava mexendo com brs muito bem consolidadas ao longo de décadas, reitero, desde a época do famoso pacto de Punto Fijo, ainda no final da década de 1950.

Ana Luiza Albuquerque: Em 2004, Chávez venceu com folga um referendo que deu à população a possibilidade de tirá-lo do cargo. Essa vitória e a tentativa de golpe anterior fortaleceram muito o poder dele, que então passou a adotar medidas antidemocráticas mais ostensivas contra a oposição.

Paulo Velasco: A figura de prisões políticas na Venezuela não é uma novidade que tenha começado com o Maduro. Isso já vem de um longo tempo. A cooptação ampla das forças de segurança do país, a criação de uma Guarda nacional bolivariana e a criação de um serviço bolivariano de informações, o temido Sebin. Então, uma série de mecanismos foram criados em nome da ordem e da estabilidade, mas que têm um caráter intimidatório de silenciamento da oposição.

Ana Luiza Albuquerque: Para protestar contra essas intimidações, a oposição decidiu usar uma estratégia polêmica e boicotar as eleições legislativas de 2005. O resultado, obviamente, foi a eleição de uma assembleia amplamente governista.

Paulo Velasco: Era uma estratégia para deslegitimar o pleito, naquela instância, naquele contexto, no início de um endurecimento do regime Chávez. Mas o tiro acaba saindo um pouco pela culatra, porque durante uma legislatura inteira o Chávez conseguiu governar com amplos poderes, assentado num parlamento absolutamente convergente com as ideias do chavismo, mesmo algumas ideias controversas.

Ana Luiza Albuquerque: Até a virada da década o Chávez governou com uma boa situação econômica e com controle do Parlamento.

Em 2009, a população aprovou em referendo uma emenda constitucional que permitiu a reeleição sem limites, abrindo o caminho para que ele concorresse outra vez em 2012.

O presidente venezuelano ganhou aquelas eleições, mas morreu no ano seguinte, vítima de um câncer. Foi aí que o vice-presidente Nicolás Maduro assumiu o poder, escolhido por Chávez como sucessor.

[Nicolás Maduro] A nombre de mi comandante amado Hugo Chávez, que me dejó aqui, y a nosotros nos dejó. Yo soy un combatente, un guerrero. Y tengo fé absoluta que este gobierno va a ser un gobierno de milagro nacional, de resurrección nacional.

Paulo Velasco: Nicolás Maduro tem uma biografia curiosa, porque ele não tem qualquer refinamento em termos de formação e não é militar de carreira. Nunca foi oficial militar. Ele era sindicalista, era motorista de caminhão, de ônibus. Então ele tinha uma representação sindical, era um nome entre os sindicalizados no país, mas acaba se tornando uma figura importante dentro do chavismo.

Ana Luiza Albuquerque: Maduro era militante de esquerda desde jovem e se aproximou do Chávez depois da tentativa de golpe de 1992. Ele participou da campanha vitoriosa de 1998 e nos primeiros anos de governo Chávez se elegeu deputado. Em 2006, ele foi nomeado chanceler. O Paulo Velasco diz que naquela época a política externa venezuelana concorria com a brasileira de Lula, e que Chávez era um líder que tinha muita visibilidade em várias regiões do mundo, como o Oriente Médio e a África.

Paulo Velasco: Ser chanceler na Venezuela não é o que é hoje ser chanceler na Venezuela. É ser chanceler de um país que tinha projeção, visibilidade, penetração internacional muito robusta.

Ana Luiza Albuquerque: Em 2012, Maduro chegou à vice-presidência. Na Venezuela não existe chapa para eleição, como no Brasil. É o próprio presidente, depois de eleito, que escolhe o vice, da mesma forma que escolhe um ministro. Quando Chávez colocou Maduro como vice, ele já estava sinalizando que o enxergava como um sucessor.

Em março de 2013, depois da morte de Chávez, Maduro assumiu interinamente como presidente e convocou eleições. Ele venceu o adversário Henrique Capriles num pleito super apertado e teve a vitória contestada pela oposição.

Paulo Velasco: Na verdade o Maduro não teve um dia de paz sequer. Ele passa a enfrentar uma oposição já muito dura, uma oposição que já não tinha o mesmo vigor nos últimos anos do governo Chávez, mas que voltou a ganhar muita força contra Maduro, reconhecendo que Maduro era um alvo mais fácil de crítica. Maduro não tem o carisma que tem o Chávez. Era mais fácil bater no Maduro do que bater no Chávez.

Ana Luiza Albuquerque: Na virada da década, o preço do petróleo, fator fundamental para a sustentação da economia venezuelana, já não estava tão alto, e o Chávez passou a ter dificuldades para manter os investimentos nos programas sociais característicos do governo. Foi nesse contexto que Maduro assumiu em 2013.

Paulo Velasco: Não é um acaso que Chávez tenha vencido por uma margem pequena em 2012. Já havia uma inflação galopante na Venezuela à época, o país já não crescia mais na mesma proporção, o petróleo já não estava mais cotado acima de $100, como esteve durante muitos anos da era Chávez. Está uma situação já periclitante no final do governo Chávez, mas que se agrava com o tempo no governo Maduro.

Ana Luiza Albuquerque: A gestão econômica do Maduro também ajudou a afundar a PDVSA, a petrolífera estatal.

Paulo Velasco: Há um desinvestimento absoluto no país. A Venezuela para de investir, por exemplo, no setor petrolífero, o que vai levar um sucateamento progressivo da PDVSA. A gente sabe que as máquinas que estão em petróleo, elas têm que ser modernas, têm que ser revisadas com frequência porque, senão, em pouco tempo elas ficam sucateadas. E isso é o que aconteceu no país. A Venezuela do Maduro conseguiu a proeza de ter hoje a menor produção petrolífera dos últimos 40 anos na Venezuela.

Ana Luiza Albuquerque: A economia entrou em forte crise, com o PIB despencando a partir de 2015 e a inflação chegando a inacreditáveis 130.000% em 2018, segundo dados do próprio governo –o FMI estima que essa porcentagem tenha sido, na verdade, 10 vezes maior.

Além disso, os Estados Unidos e outros países impuseram sanções ao regime diante das violações de direitos humanos e declinio da democracia, o que piorou ainda mais o cenário. A Venezuela passou a enfrentar uma grave crise de abastecimento e, em 2018, a pobreza atingia 65% da população, segundo índice da Universidade Católica Andrés Bello.

O resultado é que hoje mais de 7 milhões de venezuelanos, quase um quarto da população, vivem fora do país, segundo a ONU. Eles são uma importante fonte de renda pras famílias, já que enviam dólares do exterior.

Com o país totalmente quebrado, cresceu muito a insatisfação popular, e Maduro apertou a repressão pra se agarrar ao poder. Nesse sentido ele é diferente de Chávez, que foi minando a democracia de uma forma mais gradual, como a maioria dos líderes dos quais a gente já falou nessa série. Ainda que tenham acontecido prisões políticas sob Chávez, a violência não foi a tônica do governo dele –em primeiro lugar porque, com alto índice de popularidade, ele não precisou fazer uso dela. Mas para o Maduro essa foi a última arma disponível.

[TV Globo] O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação sobre os supostos crimes contra a humanidade que teriam sido cometidos pelas forças de segurança da Venezuela. É a primeira vez que um país da América Latina é alvo de inquérito no Tribunal Penal Internacional.

Ana Luiza Albuquerque: O procurador-geral de Haia, Karim Khan, afirmou que existem evidências que apontam que o ataque sistemático contra a população civil foi uma política de Estado. Documento apresentado por ele no ano passado ao tribunal fala em prisões sem fundamentação legal e torturas, incluindo estupros. Khan disse que as vítimas foram submetidas a atos de violência como espancamentos, sufocamentos e choques elétricos. A investigação ainda está em curso.

Uma missão independente da ONU chegou à mesma conclusão do promotor. A equipe documentou que as agências de inteligência venezuelanas implementaram um plano para reprimir a dissidência por meio de crimes contra a humanidade. Esse plano teria sido orquestrado nos mais altos níveis do governo, com a participação de Maduro.

Para além da violência escancarada, Maduro também aprofundou duas práticas antidemocráticas de Chávez: a cooptação do Judiciário e a censura.

Para barrar a imprensa, foram adotadas algumas frentes: comprar os meios independentes ou obrigar o fechamento deles, bloquear o acesso a sites, iniciar perseguição judicial e aplicar multas contra os veículos, cercear o acesso ao papel importado para imprimir jornais e prender jornalistas que produzem investigações contra o governo.

Em 2015 o El Nacional, o jornal mais tradicional do país, reproduziu uma notícia do espanhol ABC, que dizia que o deputado Diosdado Cabello, o então número 2 do chavismo, estava sendo investigado nos Estados Unidos por uma suposta acusação de tráfico de drogas transnacional. Em 2021, o Supremo Tribunal de Justiça ordenou o El Nacional a pagar 13 milhões de dólares em danos morais a Cabello.

Miguel Otero: Yo no tenía los 13 millones de dólares, pero podrían cobrar.

Ana Luiza Albuquerque: Esse é o Miguel Otero, dono do El Nacional.

Miguel Otero: Y con un documento y un juez y un fiscal y un alguacil. Y entonces yo no tengo los 13 millones de dólares. Entonces me embargan y se quedan. No, no, no hicieron eso.

Ana Luiza Albuquerque: Como o jornal não tinha como pagar esse valor, o Exército tomou conta do edifício, numa espécie de expropriação. O prédio está abandonado hoje e, os funcionários, espalhados pelo mundo, trabalhando para a versão digital. Mas, mesmo com os jornalistas fora da Venezuela, o governo dá um jeito de atingi-los.

Quando um repórter escreve uma matéria que incomoda o regime, muitas vezes quem paga a conta são familiares que ainda vivem no país. Isso aconteceu, por exemplo, no ano passado, quando dois jornalistas, um que mora em Tenerife, uma ilha espanhola, e o outro em Bogotá, publicaram uma investigação sobre os filhos de Maduro e o suposto envolvimento deles com o narcotráfico.

Miguel Otero: Fueron contra la mamá, contra la madre, le allanaron la familia, le allanaron a la hermana.

Ana Luiza Albuquerque: Segundo Miguel, as forças de segurança invadem a casa dos familiares, quebram coisas e os levam à força para interrogatórios.

Miguel Otero: Bueno, los allanan su casa, la destruyen las cosas, los interrogan, se los llevan a la policía y la gente no tiene nada que ver.

Ana Luiza Albuquerque: O objetivo, claro, é assustar os jornalistas, que já não encontram nenhuma proteção na Justiça cooptada pelo chavismo.

Miguel Otero: Si, además se asustan. Cómo se defiende un periodista? No tienen ninguna protección.

Ana Luiza Albuquerque: O controle sobre o Judiciário começou nos primeiros anos do governo Chávez. Em 2004, a Assembleia de maioria chavista ampliou o número de ministros na Suprema Corte de 20 para 32, nomeando juízes abertamente alinhados à agenda do governo. Desde então, ONGs como a Human Rights Watch alertam que a corte adotou como prática as decisões favoráveis a Chávez e, depois, a Maduro, fechando os olhos para violações dos direitos humanos. A Justiça tem sido responsável por aplicar multas à imprensa independente e por sentenças duras e polêmicas contra líderes da oposição.

Foi o caso de Leopoldo López, condenado a 14 anos de prisão, acusado de ter incitado a violência em uma série de protestos que tomaram o país em 2014, contra e a favor do governo. Pelo menos 43 pessoas morreram e quase 900 ficaram feridas ao longo de poucos meses.

Leopoldo López: De hecho, esa convocatoria que la hicimos el 23 de enero del año 14, la hicimos María Corina Machado, Juan Guaidó y yo. Yo estaba liderando ese proceso.

Ana Luiza Albuquerque: López, que faz parte de uma ala da oposição venezuelana considerada mais radical, conta que convocou os protestos de 2014 ao lado da María Corina Machado (que foi barrada da eleição desse ano) e do Juan Guaidó (aquele que se autodeclarou presidente em 2019). Ele diz que protestou pacificamente e que não se envolveu em qualquer ato de violência, mas que mesmo assim teve a prisão determinada.

Leopoldo López: A las 4:30, 5 de la tarde hay una orden de captura en mi contra que evidentemente no tenía nada que ver con los hechos violentos. Más bien nuestra protesta fue no violenta. Estábamos sentados en el piso, estábamos muy, muy pacífico.

Ana Luiza Albuquerque: Depois que saiu a ordem de prisão, em fevereiro de 2014, López decidiu se entregar e foi levado a uma cadeia militar, onde ficou preso por 4 anos. Durante todo esse período, ele, amigos e familiares denunciaram internacionalmente a arbitrariedade da prisão e a derrocada da democracia no país.

López diz que o julgamento dele foi um julgamento contra a liberdade de expressão, já que ele foi sentenciado com br nos discursos daquele período dos protestos. E que a sentença se sustentou no argumento de que havia mensagens nas falas dele que teriam estimulado a violência, ainda que indiretamente.

Leopoldo López: Y con ese argumento, por supuesto, argumento nada sustentado ni en lugar, hechos, personas, consecuencias, fui condenado a 14 años.

Ana Luiza Albuquerque: Ainda em 2014, um grupo de trabalho da ONU pediu que o governo venezuelano libertasse López imediatamente. Essa equipe avaliou que o julgamento foi realizado sem transparência e que o devido processo legal foi desrespeitado por uma série de irregularidades.

López, que ficou preso por sete anos entre o cárcere e a prisão domiciliar, diz que não se arrepende de ter se entregado. Ele conta que o deputado Diosdado Cabello, aquele que eu comentei que era o número 2 do chavismo, foi à casa dele para tentar convencer a mulher de López de que ele deveria fugir do país. Mas ele entende que foram fatos como a prisão dele e as denúncias de tortura que mostraram para o mundo que a Venezuela não é mais uma democracia.

Leopoldo López: Lo volvería a hacer igual y creo que en ese momento, por muchas cosas que sucedieron alrededor de las protestas, esos mismos hechos fueron los que dejaron claro ante Venezuela y el mundo de que ya no estábamos en democracia.

Ana Luiza Albuquerque: Na prisão ele ficou confinado numa solitária, teve atendimento médico negado e foi vítima de tortura psicológica. Ele lembra, por exemplo, que às vezes a cela ficava sem luz mais de 12h; outras vezes, ela ficava acesa o tempo todo. Se você ouviu o episódio sobre o Daniel Ortega e a Nicarágua, talvez você lembre que essa é uma tática também utilizada por lá, na prisão conhecida como El Chipote.

Em 2017, enquanto o López estava preso, a Venezuela estava pegando fogo. Naquele ano, o Supremo Tribunal de Justiça, majoritariamente alinhado ao Maduro, decidiu que assumiria todas as competências da Assembleia Nacional —o argumento usado pelos juízes foi de que o Parlamento estaria desrespeitando as ordens do tribunal, então eles precisavam intervir. Naquela época, pela primeira vez em todo o período chavista, a oposição tinha maioria no Legislativo, depois de ter se saído bem nas eleições de 2015.

A população reagiu e milhares foram às ruas protestar. Há muitos relatos de abusos das forças de segurança e da atuação de grupos paramilitares pró-governo, os chamados colectivos, na repressão às manifestações. Em quatro meses de protestos, mais de 100 pessoas morreram.

[Nicolás Maduro] Yo le propongo a la oposición política venezolana que abandone el camino insurreccional, que vuelva a la constitución.

Ana Luiza Albuquerque: No meio disso tudo, Maduro convocou eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte sem chamar um referendo para que a população pudesse se posicionar sobre a convocação, como fez o Chávez em 1999.

A ausência do referendo foi recebida com resistência mesmo entre chavistas e acabou sendo o estopim para que alguns deles abandonassem o governo. A decisão também incendiou os protestos. O objetivo do Maduro era criar uma Assembleia paralela, com superpoderes, para esvaziar o Parlamento eleito em 2015, controlado pela oposição.

Paulo Velasco: As Constituintes nem sempre são, como o próprio nome sugere, para escrever uma nova constituição. Às vezes esse é um mecanismo político usado por determinado governante a certa altura pra assegurar maior poder político.

Ana Luiza Albuquerque: Aqui o Paulo Velasco, professor de RI, de novo.

Paulo Velasco: O objetivo era simplesmente sequestrar os poderes da Assembleia Nacional. Quando uma Constituinte é elaborada, ela acaba sendo dotada de amplos poderes.

Ana Luiza Albuquerque: Essa Assembleia existiu por três anos, sem elaborar uma nova Constituição. Ela foi encerrada em dezembro de 2020, mês em que houve eleições parlamentares que garantiram maioria chavista para o Parlamento. Ou seja, cumpriu o papel de neutralizar o Legislativo enquanto ele esteve dominado pela oposição.

Um ano depois da criação da Assembleia Constituinte, em 2018, Maduro foi reeleito em um pleito que teve 54% de abstenção e foi contestado dentro e fora da Venezuela. Sem a participação dos principais líderes oposicionistas, declarados inelegíveis, a eleição não foi reconhecida pela União Europeia e por países como Estados Unidos, Colômbia e o Brasil, na época sob o governo de Michel Temer.

Paulo Velasco: Em 2018 foi diferente porque a comunidade internacional, quase que em uníssono, primeiro critica o fato de ter havido uma limitação do acesso de observadores eleitorais. Isso já criou uma suspeita muito grande. E o próprio fato de os grandes nomes da oposição não terem podido participar, tirando o Henrique Falcón, que na verdade está longe de ser um grande nome de oposição, nunca foi. Por isso que agora se começa a fazer paralelos entre o 28 de julho, agora, futuro, e o que foi 2018, infelizmente.

Ana Luiza Albuquerque: É nesse contexto que, em 2019, a Assembleia Nacional, ainda controlada pela oposição, proclama o líder Juan Guaidó como presidente interino do país. Ainda que a Constituinte tivesse amplos poderes nessa época, a oposição aproveitou a existência da Assembleia Nacional para tentar derrubar Maduro.

[Juan Guaidó] Juro asumir formalmente las competencias del ejecutivo nacional como presidente encargado de Venezuela.

Ana Luiza Albuquerque: O Parlamento se brou em três artigos constitucionais para isso: um que dizia que qualquer cidadão pode tomar medidas contra violações à Carta; outro que permite a desobediência civil se o governo tiver violado os direitos humanos ou as garantias democráticas;e um terceiro, que permite o líder do Legislativo a assumir a Presidência em caso de "falta absoluta" de um governante.

Considerando as alegações de fraude eleitoral, Maduro seria, sob essa interpretação, um usurpador do poder e, por isso, a Presidência estaria aberta para Guaidó.

Paulo Velasco: Ele se autoproclama presidente encarregado da Venezuela. Então isso acaba, claro, criando algum tipo de controvérsia. Nem todos os partidos de oposição concordaram com aquela manobra política, mas, em grande medida, a visão daquela altura, era que era o melhor a ser feito.

Ana Luiza Albuquerque: Naquele momento, um grupo de países reconheceu Guaidó como presidente, incluindo os Estados Unidos, o Brasil governado por Jair Bolsonaro e os que fazem parte da União Europeia.

Paulo Velasco: Isso deu a ele algum lastro e algum fôlego por pouco tempo. Na verdade também porque quando se percebeu que ele tinha incapacidade completa de controlar a situação doméstica, a própria oposição começa a minar muito do seu prestígio, do seu poder.

Ana Luiza Albuquerque: O opositor Julio Borges era presidente da Assembleia Nacional em 2017 e foi chanceler desse governo autoproclamado liderado pelo Guaidó. Eu me encontrei com ele em Valência, na Espanha, onde ele vive exilado, alvo de uma ordem de prisão. A Suprema Corte venezuelana entendeu que ele participou de um atentado contra Maduro –o que ele nega.

Apesar de fazer parte do governo paralelo, Borges começou a perceber a partir de 2020 que a coisa não estava funcionando bem e defendeu que aquela tentativa acabasse.

Julio Borges: Fueron ocurriendo distintos temas y distintos errores, por llamarlo de una manera que fueron desviando la idea original.

Ana Luiza Albuquerque: Ele sentia que o governo interino tinha perdido o propósito, focando em burocracias para manutenção própria, como a utilização de recursos públicos pra manter aquela estrutura, e não em meios de derrubar Maduro e fortalecer a democracia venezuelana.

Julio Borges: En lugar de convertir eso en un medio para lograr un fin que era liberar a Venezuela, se terminó burocratizando y se convirtió en un fin en sí mismo.

Ana Luiza Albuquerque: Borges acredita que teve um erro de desenho e de execução do governo, e lamenta que a tentativa não tenha dado certo, porque eles tinham apoio popular e internacional.

Julio Borges: Se tenía los dos elementos, un gran apoyo popular y un gran apoyo internacional. Eso es mágico en estos momentos, pero por diferentes motivos no logró finalmente el desenlace y el cambio en Venezuela.

Ana Luiza Albuquerque: O professor Paulo Velasco diz que uma dificuldade de Guaidó foi trazer os militares para o lado dele, especialmente os de alta patente.

Paulo Velasco: Isso para ele foi um golpe muito duro, quando naquele momento ele viu que não iria conseguir trazer pro seu lado esse grupo militar, que é quase que o fiel da balança na Venezuela, ao longo da última década.

Ana Luiza Albuquerque: O Paulo também lembra que Maduro tinha cooptado a maior parte do Poder Judiciário e distribuído cargos em troca de alianças políticas e militares, o que diminuiu a margem de manobra de Guaidó.

Paulo Velasco: O governo que não controla nada é um governo que ao cabo de pouco tempo perde muito de sua legitimidade, não só doméstica, mas internacional também. O relógio estava a favor do Maduro, isso é fato. Então passando seis meses, um ano, um ano e meio, a figura do Guaidó perdeu muito de projeção e de legitimidade. Maduro sempre contou com esse passar do tempo.

Ana Luiza Albuquerque: Outro líder que participou do governo interino foi Leopoldo López, que tinha sido preso por incitar manifestações contra Maduro, mas que conseguiu escapar da prisão domiciliar quando Guaidó se autoproclamou presidente. O López conta que aquele era um momento de muita pressão política, e que conseguiu convencer os agentes do Sebin e de forças militares a libertá-lo em abril de 2019.

Leopoldo López: No era convencerlos para algo que era mi interés, sino era algo de nuestro interés que salir de la dictadura.

Ana Luiza Albuquerque: Os líderes opositores ainda tinham esperança que o Tribunal Supremo convocasse novas eleições, o que estimularia outros grupos a se pronunciar. Mas isso não aconteceu, e López teve que se refugiar na embaixada da Espanha, onde ficou por um ano e meio até fugir para a Colômbia.

Uma fuga que deu trabalho: com a ajuda de pessoas próximas ele reuniu alguns carros que contavam com placas e informações de uma empresa estatal. Eles usavam uniformes, bonés e tinham credenciais dessa empresa. Daí eles dirigiram umas 16 horas e passaram por 20 postos de controle sem ser descobertos. Era época da Covid, e a máscara ajudou o disfarce.

Leopoldo López: Yo tenía la máscara y bueno, estaba obviamente tosiendo y haciendo que estaba bastante enfermo. Nunca supieron quién era yo y ahí logramos sortear la situación y cruzamos al otro lado, donde llegamos a Colombia.

Ana Luiza Albuquerque: Nos anos seguintes, López se exilou na Espanha e fundou uma aliança de líderes e ativistas que têm lutado contra as autocracias em todo o mundo.

Não foram só os opositores que tiveram que se exilar. Gabriela Ramirez foi deputada chavista e defensora geral do povo na Venezuela, ou seja, uma espécie de chefe nacional da Defensoria Pública. Hoje, ela trabalha na cozinha de restaurantes em Valência, cidade espanhola.

Gabriela Ramirez: Yo soy una mujer que toda la vida ha vivido de su trabajo. Aquí en España igual. Yo soy cocinera aquí, he fregado platos hasta las 3 de la mañana aquí. Me he quedado sin uñas.

Ana Luiza Albuquerque: Ainda que tenha fugido da Venezuela com medo de ser presa, depois de ter rompido com o governo Maduro em 2017, Gabriela diz que é uma imigrante venezuelana como qualquer outra e que já chegou a trabalhar 10h em um dia por 40 euros. Com esses 40 euros, ela compra pão, farinha e azeite, e garante a comida da semana para ela e para os filhos. A Gabriela fala que não quer fazer drama e que não tem nada de especial em relação aos outros imigrantes.

Gabriela Ramirez: Lo que hace cualquier venezolano, yo soy la típica venezolana.

Ana Luiza Albuquerque: Ela se lembra de uma cena que aconteceu enquanto lavava pratos em um restaurante em Valência. Um menino chegou em um patinete e entregou o currículo dele pro chefe dela, que perguntou se ele tinha "papeles", ou seja, autorização pra trabalhar no país. Ele não tinha. Daí o garoto foi embora, o chefe colocou o currículo na mesa, e depois de ler o cabeçalho virou pra ela e disse: Caracas, Venezuela. A Gabriela diz que esse episódio simboliza que ela é igual a qualquer outro imigrante venezuelano, lutando por uma vida melhor do outro lado do mundo.

Gabriela Ramírez: Y yo… que de especial tengo yo? Es que estamos así. Y me dio un dolor…

Ana Luiza Albuquerque: A realidade que ela vive hoje é muito diferente daquela de antes do exílio, quando Gabriela ocupava um alto cargo no chavismo e contava com assessores para ajudá-la o tempo todo.

Gabriela Ramirez: Yo soy una mujer que se enamoró del proyecto político de la Constitución venezolana, fue detrás de un hombre que se llama Hugo Chávez, llegó a ocupar un alto cargo y este proyecto se malogró en algún momento.

Ana Luiza Albuquerque: Ela foi defensora do povo por sete anos, sendo seis na era Chávez. A Gabriela diz que as coisas mudaram drasticamente com o Maduro, e que a sensação que ela tinha era de ter mudado de país. Ela demorou a admitir para ela mesma as violações de direitos humanos que estavam acontecendo a mando do governo, e mais ainda para se posicionar publicamente. Se fosse no Brasil, a gente diria que a Gabriela estava passando pano para o Maduro.

Gabriela Ramirez: Yo me negué muchísimo a las informaciones de los medios.

Ana Luiza Albuquerque: Ela diz que custou muito a acreditar no que a imprensa estava denunciando e cita aquela fábula do Pastor Mentiroso e o Lobo para explicar o que aconteceu. Segundo essa história, um homem que levava ovelhas para pastar mentiu tanto sobre ter avistado lobos na região que quando realmente apareceu um lobo, ninguém acreditou e ninguém foi ajudá-lo, e as ovelhas foram atacadas.

Gabriela Ramirez: Y cuando llegó el lobo yo no les creí, entiende? Entonces yo: Eso es mentira, se lo están inventando.

Ana Luiza Albuquerque: A Gabriela diz que a imprensa mentiu tanto sobre o Chávez que ela inicialmente não acreditou nas denúncias contra Maduro.

Gabriela Ramirez: Tú sabes la cantidad de mentiras que dijeron de Chávez? Dijeron mucho y mintieron mucho acerca de Chávez. Mintieron muchísimo.

Ana Luiza Albuquerque: Chávez costumava dizer que a imprensa o perseguia e publicava informações e denúncias falsas sobre o governo dele. Ele também dizia que as empresas do setor tiveram participação direta na tentativa de golpe contra ele, em 2002. O ex-presidente regulou a mídia, chegou a fechar mais de 30 estações de rádio e expandiu os veículos estatais.

Em 2014, em meio à repressão do regime Maduro às manifestações, Gabriela chegou a dizer que era importante diferenciar maus tratos de tortura, afirmando que a tortura é uma prática utilizada para obter informações de alguém.

[Gabriela Ramírez] La tortura se emplea para obtener… Se le inflige sufrimiento físico a una persona para obtener una confesión. Tenemos que diferenciar de un trato excesivo, uso desproporcional de la fuerza.

Ana Luiza Albuquerque: Eu perguntei para ela sobre essa fala.

Gabriela Ramirez: Fíjate, eso fue una estupidez. Que hay que decir?

Ana Luiza Albuquerque: Ela disse que nessa época ainda não sabia que de fato estava havendo casos de tortura e que naquele momento na entrevista ela estava discutindo conceitos.

Gabriela Ramirez: Es una declaración torpe, tonta y inadecuada, pero al final del día es un concepto que yo estaba citando.

Ana Luiza Albuquerque: A Gabriela também conta que nesse período pediu que os defensores verificassem a situação dos presos e que eles diziam que estava tudo normal.

Gabriela Ramirez: Claro, los defensores estaban también un poco cooptados por las autoridades.

Ana Luiza Albuquerque: Aí a Gabriela diz que pediu para uma pessoa da confiança dela percorrer o país para checar o que estava acontecendo.

Gabriela Ramirez: Y ahí fue donde me abrieron los ojos, pero con bisturí.

Ana Luiza Albuquerque: Essa pessoa contou para ela que os jovens manifestantes, presos aos montes, estavam sendo mantidos dentro de uns furgões, todos amontoados, sem espaço para se mexer. Depois ela teve pesadelos com pessoas da família dela dentro desses veículos.

Gabriela Ramirez: Yo después tuve pesadillas que sacaban a familiares míos de esas furgonetas.

Ana Luiza Albuquerque: Foi aí que ela começou a abrir os olhos para os abusos que estavam acontecendo. A Gabriela sustenta que a partir daí, ainda que não tenha denunciado Maduro publicamente, começou a agir para soltar o máximo de presos. Ela diz que poderia ter denunciado o governo e se refugiado com a família em uma embaixada, mas que escolheu outro caminho.

Gabriela Ramirez: Esto va a sonar muy cliché, pero estoy en paz con mi conciencia. tuve la oportunidad de ayudar a personas y las ayudé. Liberé la mayor cantidad de personas que estuvo dentro de mis capacidades humanas.

Ana Luiza Albuquerque: Ela fala que, de qualquer forma, hoje está pagando o preço de qualquer erro que possa ter cometido –em uma situação de instabilidade financeira, por enquanto sem condições de trabalhar na área dela na Espanha. E odiada tanto pelos chavistas quanto pela oposição.

Gabriela Ramirez: Yo estoy en el purgatorio de la política. Ni con ellos ni con los otros.

Ana Luiza Albuquerque: Foi só em 2017, quando trabalhava como assessora jurídica do Tribunal Supremo, que ela decidiu deixar o país. A gota d'água foi quando o Maduro anunciou que convocaria a Constituinte, sem autorização do povo. Quando soube disso, ela enviou uma mensagem em um grupo de Whatsapp com colegas do trabalho, dizendo que estava se retirando.

Gabriela Ramirez: Yo les digo compañeros, me retiro del grupo, me voy porque esto es inaceptable para mí.

Ana Luiza Albuquerque: Foi também naquele ano que a então procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega Diaz, passou a fazer duras críticas ao regime publicamente, como quando o Tribunal Supremo usurpou os poderes da Assembleia.

Eu também encontrei a Luisa na Espanha, até porque eu queria perguntar sobre aquela afirmação do Gabriel Sguerzi, o ativista que falou no começo do episódio. Segundo ele, a Luisa teria orientado uma subordinada a convencê-lo a prestar um depoimento falso que prejudicasse líderes opositores.

Essa subordinada foi nomeada pelo governo e chegou a ser impedida de entrar no prédio do Ministério Público pela própria Luisa, como noticiou a imprensa na época. A Luisa nega ter orientado essa funcionária nas visitas aos presos na Tumba.

Luisa Ortega Diaz: Es una bandida. Esa es mi enemiga.

Ana Luiza Albuquerque: A Luisa também nega ter fechado os olhos para os casos de tortura e diz que sempre que recebia uma denúncia enviava fiscais para conferir a situação. Ela fala que ser procuradora era uma função incômoda, que nunca iria agradar a todos e que quem comete crimes sempre alega ser inocente.

Luisa Ortega Diaz: Incluso los que cometen delitos siempre dicen que son inocentes. Yo no estoy diciendo que X o G sea inocente o no, que te quiero decir que eso siempre ocurre.

Ana Luiza Albuquerque: Durante a nossa conversa a Luisa contou sobre várias situações em que enfrentou o governo nos 7 anos como procuradora. Em 2016, por exemplo, ela diz que Maduro pediu diretamente a ela que abrisse uma investigação contra a oposição, que estava pressionando por um referendo para tirar o ditador do poder. E ela respondeu que não podia fazer isso, e que Maduro como presidente também era obrigado a garantir os direitos políticos de todos.

Luisa Ortega Diaz: Mire Presidente, yo no puedo hacer eso. Recuerde que usted también está obligado a garantizar los derechos políticos.

Ana Luiza Albuquerque: Ela também lembra de ter dito a Maduro que, quando morre um venezuelano, governista ou de oposição, ele deveria lamentar publicamente –e que ele ignorou esse conselho. Em 2017, em meio à repressão aos protestos, Maduro apareceu dançando na TV estatal depois de convocar a Constituinte.

Luisa Ortega Diaz: Usted no puede salir bailando cuando están matando a los venezolanos. Y tú sabes qué hizo después? Apareció en un acto público y bailó el doble.

Ana Luiza Albuquerque: A Luisa rompeu de vez com o governo quando o Tribunal Supremo tomou o controle da Assembleia. Ela diz que não queria que seu nome ficasse marcado na história como o de alguém que teve envolvimento com a destruição da democracia no país.

Luisa Ortega Diaz: Tú sabes, cuando en Venezuela se recomponga el Estado de derecho y en las universidades se discutan esas decisiones. Qué vergüenza! Mira quienes firmaron estas decisiones.

Ana Luiza Albuquerque: Depois disso, a perseguição contra a procuradora se intensificou. Ela diz que a trataram como louca, invadiram a casa dela várias vezes e expropriaram o apartamento. Em certo momento, Luisa e o marido teriam sido avisados de que ela seria assassinada e ela diz que foi aí que concordou em fugir do país. Mas isso também aconteceu logo depois que a Justiça venezuelana emitiu uma ordem de prisão contra o marido dela, acusado pelo regime de liderar uma rede de extorsão a empresários.

Eles saíram escondidos de lancha, às 3 da manhã, e fugiram para Aruba, uma pequena ilha no Caribe que é território da Holanda. Para isso eles tiveram ajuda de muita gente, inclusive de guardas nacionais. Eles foram para a Colômbia e, algum tempo depois, motivados pela eleição do Petro, para a Espanha.

Ela fala que em algum momento perdeu o medo de ser presa ou de ser morta porque estava comprometida com a defesa da democracia.

Luisa Ortega Diaz: No me importa. Yo estoy receada por la democracia en Venezuela y voy a hacer todo lo posible por las vías democráticas, porque no me gustan las aventuras y no me gusta tampoco eso de andar escondido haciendo cosas.

Ana Luiza Albuquerque: Quando a gente conversou, ainda não tava claro qual seria o candidato da oposição venezuelana, e a Luísa lamentou a dificuldade de união em torno de uma plataforma em comum. E disse que essa falta de clareza deixa a população perdida, sem saber qual estratégia deve seguir para tentar derrubar Maduro. Ela acredita que o ditador está frágil, mas que não tem quem o derrube.

Luisa Ortega Diaz: Maduro está en su momento de mayor debilidad. Maduro está frágil, pero no hay quien lo empuje.

Ana Luiza Albuquerque: As próximas eleições gerais estão marcadas para o dia 28 de julho, mas Maduro já sinalizou que, assim como em 2018, esse não vai ser um pleito competitivo de verdade. Isso porque a principal figura da oposição, María Corina Machado, foi impedida de concorrer. A Controladoria-Geral da Venezuela a tornou inelegível por supostas irregularidades administrativas na época em que foi deputada, de 2011 a 2014.

Paulo Velasco: Ela faz parte de um grupo de opositores que não goza de tanta legitimidade nos distintos segmentos da política venezuelana, justamente porque, ao lado de outros personagens, como Leopoldo López, por exemplo, acabou lançando mão muitas vezes de manobras um pouco mais radicais.

Ana Luiza Albuquerque: De novo o Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais especialista em Venezuela.

Paulo Velasco: Em 2017 foi um exemplo. Ela acabou provocando as pessoas a irem às ruas, mesmo sabendo que aquilo poderia dar errado em termos de reação do governo. Mas era talvez uma maneira que encontrava para deslegitimar em definitivo perante a comunidade internacional o governo do Maduro, mas enfim, à custa de vida de pessoas. E isso é o tipo de coisa que não se faz, naturalmente.

Ana Luiza Albuquerque: Paulo diz que Maria Corina Machado acabou sendo um dos poucos nomes tradicionais de oposição a continuarem na Venezuela e que por isso foi natural que as pessoas se juntassem em torno da candidatura dela.

Paulo Velasco: Então, mesmo aqueles que torciam o nariz para ela no primeiro momento acabavam vendo nela talvez a única chance de derrotar o Maduro nas urnas.

Ana Luiza Albuquerque: No mês passado, o presidente Lula, que costuma resistir a denunciar abusos de aliados internacionais, foi perguntado por jornalistas sobre o assunto e fez uma fala que acabou muito criticada, inclusive pela própria Maria Corina.

[Lula] Eu só disse a vocês que houve aqui nesse país… Eu fui impedido de concorrer às eleições de 2018, em vez de ficar chorando eu indiquei outro candidato e disputou as eleições.

Ana Luiza Albuquerque: No fim de março, o regime também vetou o nome de Corina Yoris, apontada por Machado como substituta dela. Aí o Lula se manifestou em outro tom. Ele disse que o veto é grave e que não tem justificativa política ou jurídica para proibir um adversário de disputar as eleições.

Com as movimentações recentes, Maduro vem sinalizando que não vai respeitar os Acordos de Barbados, firmados no ano passado com a mediação da Noruega. Na ocasião, o regime se comprometeu a realizar eleições livres, justas e competitivas, com a presença de observadores internacionais. Em resposta, nações como os Estados Unidos levantaram sanções contra o país.

Pra além do autoritarismo de Maduro, a oposição também tem dificuldade em se organizar e apresentar propostas, como várias pessoas me disseram ao longo das entrevistas.

Paulo Velasco: Nunca houve de fato um empenho em produzir de maneira mais combinada, consensual, conjunta, um projeto com a Venezuela no day after, no dia seguinte, a eventualmente conseguirem vencer uma eleição. E até hoje isso é um desafio. Hoje, pensando nas eleições deste ano, não se sabe o que é de fato a plataforma unitária em termos de projeto de Venezuela. Então, na eventualidade cada vez mais remota de Maduro perder as eleições, este é um enorme desafio.

Ana Luiza Albuquerque: Leopoldo López diz que essa é uma crítica cômoda contra a oposição, que ignora as dificuldades de enfrentar um regime autoritário, já que toda ditadura tenta dividir os setores oposicionistas.

Leopoldo López: La dictadura va infiltrando movimiento, va haciendo algo que es la captura de distintas dirigencias para ir separando y dividiendo. Y todo eso ocurrió en Venezuela.

Ana Luiza Albuquerque: Ele diz que o apoio da comunidade internacional é importante, e que eles não estão pedindo ao Lula, por exemplo, para apoiar a Maria Corina, mas sim que tenha igualdade de condições no pleito.

Leopoldo López: Si él quiere apoyar a Maduro como candidato, pues muy bien, que lo apoye, que haya o que haga un acto electoral con Maduro, que invite a Maduro a Brasil y que le levante la mano.

Ana Luiza Albuquerque: Ele também fala que o Brasil viu nos últimos anos como a democracia pode ser frágil e, por isso mesmo, espera que a importância de eleições justas seja reconhecida.

Leopoldo López: Y yo esperaría que, sobre todo después de los tiempos tan turbulentos que se vivieron en Brasil, que se entiende que la democracia es frágil también y que la democracia está allí un día y el otro día puede que no esté...

Ana Luiza Albuquerque: Ainda que os últimos acontecimentos sinalizem que as eleições não serão justas, tem gente na oposição que ainda tem esperança de encontrar uma brecha para vencer. É o caso do Julio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional. Ele diz que a questão é cirúrgica: que o Maduro quer que as eleições pareçam minimamente competitivas, mas ao mesmo tempo minimizando ao máximo os riscos de uma derrota. O papel da oposição, então, é se organizar e esperar que ele cometa um erro de cálculo –como aconteceu em 2015, ele diz, quando os opositores ganharam a maioria do Parlamento.

Julio Borges: Y nosotros estamos jugando para competir, así no sea competitivo, pero también apostando a que él puede cometer un error de cálculo. Y en ese error de cálculo nosotros lograr que la gente se manifieste.

Ana Luiza Albuquerque: Ele fala que Maduro sabe que é visto como um ditador, e que ele quer melhorar essa imagem com o resto do mundo. Até por estar sendo investigado na Corte Penal Internacional.

Julio Borges: Maduro sabe que es tóxico. Maduro sabe que es radioactivo. Maduro sabe que está en la lista de los peores dictadores del mundo. Y eso le pesa.

Ana Luiza Albuquerque: O Julio acha que Maduro não está satisfeito em apenas fazer parte de uma ordem autocrática alternativa ao Ocidente –a Venezuela é próxima de países como Rússia, China, Irã e Cuba. Ele diz que Maduro lida com uma contradição –ele tem vontade de ser respeitado no Ocidente como administrador de grandes reservas de petróleo e gás, mas, ao mesmo tempo, segue os códigos de países autocráticos.

Mesmo que Maduro erre o cálculo, ele tem gente muito poderosa que ainda sustenta o poder dele.

Paulo Velasco: Ele conta com o apoio de alguns militares chaves em posições chaves, que são os que controlam de fato as grandes guarnições na Venezuela.

Ana Luiza Albuquerque: Aqui o Paulo Velasco de novo.

Paulo Velasco: E sem o controle dessas guarnições militares é difícil alguém, algum nome de oposição, conseguir reverter o jogo político. E o Maduro fez isso colocando esses generais, especialmente, em posições de controle de serviços, como, por exemplo, distribuição de remédios, distribuição de alimentos.

Ana Luiza Albuquerque: Segundo o Paulo, as pessoas mais ricas no país hoje não são empresários, mas sim esses oficiais de alta patente.

Os Estados Unidos acusam Maduro de chefiar um cartel do narcotráfico, e oferecem até 15 milhões de dólares por informações que levem à captura ou à condenação dele. Esse suposto envolvimento é frequentemente citado por líderes opositores, que afirmam que o crime é outra perna que sustenta o poder do Maduro e o controle dele sobre o território. Depois que os Estados Unidos apresentaram as acusações criminais contra ele, em 2020, Maduro se referiu à ação como "extravagantemente extremista e vulgar", nas palavras dele.

A história mostra que fatores como desenvolvimento e crescimento econômico e abundância de recursos naturais aumentam a estabilidade das ditaduras, enquanto protestos e conflitos as enfraquecem. Seguindo essa linha de raciocínio, Maduro esteve mais em risco entre 2017 e 2020, quando a economia estava em absoluto colapso e as manifestações tomavam o país. Hoje o cenário econômico está um pouco melhor, mas pode piorar porque os Estados Unidos retomaram as sanções contra o país depois que a Maria Corina foi barrada das eleições.

De qualquer forma, ainda que a chance seja pequena, não dá para ignorar a possibilidade de reverter a ditadura por meio das eleições. Segundo a br de dados da cientista política Erica Frantz, referência no estudo do autoritarismo, as eleições foram o principal meio de derrubada de regimes ditatoriais desde o fim da Guerra Fria. Em alguns meses a gente vai descobrir se Maduro cai ou se o regime dele continua sem data para acabar.

[Nicolás Maduro] Máxima unión y movilización cívico-militar. Que el equipo gana, y vamos a ganar, por las buenas o por las malas vamos a ganar, siempre ganar! Está dicho. No digo más.

Ana Luiza Albuquerque: Eu sou Ana Luiza Albuquerque, responsável pela apresentação, roteiro, produção e reportagem do Autoritários.

A edição de som é do Raphael Concli. A coordenação é da Magê Flores e do Daniel Castro, a produção no roteiro é do Victor Lacombe e a supervisão dele é do Gustavo Simon. A identidade visual é da Catarina Pignato.

Esse episódio usou áudios de VTV, Télam, TV Globo, Human Rights Watch, AFP Español, CanalGov e Latina Noticias.

Obrigado por continuar com a gente neste episódio bônus, e se você chegou agora fica o convite para escutar os outros capítulos da série. Até uma próxima!

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Democracy and Authoritarianism

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