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Recurso Jornalístico Setembro 4, 2025

Como estamos investigando o boom do desenvolvimento de data centers no Brasil

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A blurred image of a dimly lit datacenter hallway showing out of focus vertical stacks of lights emitted by computer processors.
Inglês

How data center companies are working to avoid regulation at the local and federal levels.

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Os data centers são uma parte essencial da inteligência artificial. Esses gigantescos armazéns, muitas vezes do tamanho de campos de futebol, abrigam computadores potentes equipados com chips que processam, distribuem e treinam dados. Pode-se dizer que os data centers são a parte física da “nuvem”. Com a popularização da IA, cresceu a demanda das empresas de tecnologia por data centers projetados especificamente para o treinamento de IA. Esses data centers são maiores e consomem mais recursos do que outros projetados para serviços em nuvem, por exemplo. Eles são popularmente conhecidos como hiperescaladores.

Globalmente, as empresas estão buscando desenvolver e construir centros de dados para atender a essa demanda. Essas infraestruturas têm uma grande pegada energética e consomem muita água, dada a necessidade de resfriar os servidores dentro dos armazéns. Isso significa que as regiões que têm disponibilidade de água e energia estão se tornando cobiçadas pelos desenvolvedores como destinos ideais para a construção de centros de dados.

A cadeia de suprimentos de inteligência artificial é, como um todo, envolta em sigilo. A opacidade é um elemento central na forma como as empresas envolvidas na cadeia de suprimentos de IA trabalham. O mesmo se aplica aos centros de dados.


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Os desenvolvedores estão interessados em divulgar o mínimo de informações antes do início da construção. É por isso que as comunidades que recebem esses projetos geralmente só tomam conhecimento deles meses antes de começarem a operar, ficando sem informações cruciais, como consumo de água e energia, necessárias para avaliar como esses projetos afetarão elas e suas comunidades e para se mobilizarem contra o projeto, se assim desejarem.

Nos últimos meses, publicamos nossa série A boiada da IA (The AI Herd) no Intercept Brasil. Em português, o nome é um trocadilho com a palavra brasileira boiada, que significa “rebanho de bois”. Mas o termo boiada ganhou uma nova conotação durante o governo de Jair Bolsonaro, quando o ex-ministro do Meio Ambiente sugeriu “passar a boiada” como forma de contornar as regulamentações ambientais durante a pandemia da COVID-19, enquanto todos os olhos estavam voltados para a emergência de saúde.

Nosso projeto “A Boiada da IA” analisa dois níveis: o macro e o local. Antes de mergulhar no nível local, precisávamos explicar ao nosso público como os data centers que estão surgindo em cidades aleatórias do Brasil fazem parte de um plano maior, que vai além do Brasil. Também precisávamos familiarizar nosso público com o que são data centers, quais são seus impactos potenciais e por que eles estão surgindo repentinamente no Brasil.

Sabíamos que o governo federal estava trabalhando em uma política nacional para atrair investimentos em data centers para o Brasil. Isso estava sendo liderado pelo Ministério da Economia, com a participação de alguns outros ministérios. Eu estava particularmente interessado em ver se essa política nacional tinha algum componente ambiental.

Em 2023, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio publicou um documento sugerindo a “desburocratização” dos investimentos por meio da dispensa de licenças ambientais. O estudo argumentava que os data centers são projetos de baixo impacto e, portanto, não requerem licenciamento.

Enviei solicitações formais à imprensa do governo, a vários ministérios, perguntando sobre essa “sugestão”. Não recebi respostas.

Então, mudamos de estratégia e procuramos informações sobre reuniões realizadas por autoridades governamentais sobre a política de data centers. Essas informações são públicas no Brasil e disponibilizadas em sites do governo.

Foi assim que descobrimos que o Ministério do Meio Ambiente havia sido completamente marginalizado nas discussões para desenvolver essa política nacional de data centers. Em mais de 80 reuniões com 200 funcionários públicos, o Ministério do Meio Ambiente não esteve presente em nenhuma. Então, confirmamos isso por meio de um pedido formal à imprensa.

Essa foi uma ausência importante, pois o Ministério do Meio Ambiente é responsável por fornecer diretrizes para os processos de licenciamento ambiental de data centers realizados em nível estadual.

Outro componente importante da política era a promessa de liberar trilhões de reais em investimentos. Embora a política ainda não tivesse sido publicada nem divulgada ao Congresso, autoridades governamentais estavam dando entrevistas nas quais afirmavam que a política tinha o potencial de liberar R$2 trilhões em investimentos ao longo de 10 anos.

Esse é um número muito alto — em termos práticos, exigiria o anúncio de quatro a cinco projetos de data centers de grande escala, com centenas de megawatts de capacidade, a cada ano. Queríamos saber como o governo chegou a esse número.

Perguntei exaustivamente aos ministérios envolvidos, mas eles continuavam nos dizendo que “a política ainda estava sendo discutida” e que não tinham nada pronto para nos mostrar. No entanto, ao mesmo tempo, o Ministério da Economia viajou para a Califórnia e se reuniu com executivos de empresas para apresentar o plano.

A falta de respostas era, por si só, uma notícia. Publicamos um artigo destacando como o governo vinha usando esse grande número para justificar sua política, mas não havia mostrado como chegou a esse número e, mais importante, o que o Brasil tinha a ganhar com isso. Naquela época, com base em entrevistas e reportagens da mídia, ficou claro que, no centro da política, estavam incentivos e isenções fiscais para tornar o Brasil atraente para os desenvolvedores.

Política nacional, impacto local

Em nível local, nossa primeira tarefa foi descobrir quais projetos estavam por vir, para onde estavam indo e sua fase atual de instalação. Já tínhamos algumas pistas com base em matérias básicas que estavam saindo na imprensa e em conversas que tive com executivos de data centers. Esta é uma boa dica: como o setor está tão competitivo no momento, as empresas estão ansiosas para divulgar informações sobre os concorrentes. Nosso trabalho é verificar e conferir essas informações, mas algumas delas foram confirmadas.

Sabíamos que pelo menos quatro ministérios diferentes em nível federal estavam trabalhando na política de data centers e aprovando data centers. Fizemos várias solicitações com base na Lei Brasileira de Acesso à Informação, pedindo uma lista dos projetos de data centers que estavam sendo analisados pelo governo. Uma dica útil é mapear quais são os órgãos governamentais relevantes envolvidos e adaptar as solicitações a cada um deles com base em sua experiência e envolvimento potencial, em vez de fazer uma única solicitação para todos.

Tivemos sucesso com um ministério: o de Energia e Minas. Ele nos forneceu uma lista de todas as empresas que haviam solicitado acesso à rede básica de energia para instalar centros de dados. Isso acabou sendo uma grande conquista, já que esse é o primeiro obstáculo burocrático que as empresas precisam superar em nível federal. Sem energia, os centros de dados não existem.

Com essa lista, pudemos publicar uma matéria sobre pelo menos cinco projetos planejados em cidades que já estavam sofrendo com a seca. Meu colega Francisco Amorim cruzou a lista que obtivemos do Ministério da Energia com um banco de dados público que contém informações sobre emergências declaradas por municípios devido à seca ou períodos prolongados de estiagem.

Uma dessas cidades era Eldorado do Sul, no sul do Brasil. Inicialmente, foi surpreendente ver Eldorado na lista de cidades que sofriam com a seca, pois em 2024 ela estava submersa. Eldorado do Sul foi a cidade mais afetada durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. Mais de 80% da cidade ficou submersa e os danos ainda são visíveis até hoje. Mas mesmo assim foi escolhida como local para um data center.

Esta matéria dá o título ao nosso projeto do Pulitzer Center Da destruição à especulação. Em maio de 2025, viajamos para Eldorado do Sul. Nosso principal objetivo era entender como a população estava percebendo esse projeto. Ficamos surpresos quando chegamos e descobrimos que muitas pessoas não sabiam que um data center estava chegando à cidade. Mas, acima de tudo, essa não era a principal preocupação das pessoas de lá. Sua prioridade era reparar suas casas, prevenir futuras enchentes e esperar que o município implementasse soluções para evitar futuras enchentes e danos.

Mais preocupante era o fato de que os povos indígenas Guarani-Mbyá, que são os vizinhos mais próximos do data center, não tiveram seu direito de consulta e consentimento respeitado, uma violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Para esta reportagem, tentamos entrevistar o prefeito e alguns funcionários do governo estadual. Nenhum deles quis falar conosco. Eles também disseram que não tinham informações para compartilhar no momento, embora o governo já tivesse assinado um protocolo de intenções com a empresa.

Uma maneira de confirmarmos a localização exata do projeto foi indo ao cartório de Eldorado do Sul e pagando por uma cópia do registro da propriedade. Com isso em mãos, pudemos confirmar a localização, as dimensões do terreno e o preço pago pelo desenvolvedor do data center.

Outra dessas cidades que receberá um projeto é Caucaia, no Ceará, no nordeste do Brasil. Oficialmente, esse projeto está sob o nome da Casa dos Ventos, uma empresa de energia eólica do nordeste. Mas, dadas as dimensões do data center e o fato de que a Casa dos Ventos não é uma incorporadora de data centers, suspeitamos que outra empresa assumirá o projeto assim que ele estiver concluído. Essa é uma tática comum usada por empresas de tecnologia: elas utilizam desenvolvedores ou empresas de fachada para evitar associar seus nomes a projetos potencialmente controversos.

No entanto, nossa experiência mostra que, quando podemos informar explicitamente aos nossos leitores que uma empresa de tecnologia conhecida por eles está ligada a um projeto de data center, eles se envolvem mais com a história.

É aí que entra outra técnica jornalística: tenha suas fontes. A partir de mais de duas fontes em nível federal envolvidas na discussão da política nacional, sabíamos que o TikTok e a ByteDance estavam ligados a esse projeto. Isso foi corroborado, mais uma vez, por reuniões entre funcionários públicos, autoridades e funcionários do TikTok.

Conseguimos encontrar pelo menos cinco reuniões entre autoridades de alto nível, como ministros, e funcionários da TikTok cujas funções incluíam “desenvolvimento de data center” ou “líder de infraestrutura”. Todas essas reuniões contaram com a participação do governador do Ceará. Poucos dias antes de publicarmos nossa matéria, a Reuters publicou uma matéria corroborando nossas descobertas de que a Bytedance estava considerando uma participação em um data center no Ceará.

Outra dica útil é que, desde o início do processo de reportagem, nos envolvemos com organizações da sociedade civil e de base nacionais e locais. Nós as utilizamos como fontes especializadas em nossa reportagem, consultamos sobre informações contextuais e as mantivemos atualizadas sobre quaisquer repercussões. Isso nos ajudou a construir uma conexão baseada na confiança. Graças a uma dessas conexões, conseguimos obter um documento que foi apresentado pela empresa de energia eólica para obter sua licença ambiental.

Esse documento contém informações cruciais que as empresas querem esconder, como a estimativa de consumo de energia e água e informações sobre como o projeto está sendo licenciado. Com esse documento, conseguimos publicar duas novas matérias. Uma destacou a intensa pegada energética do projeto com base em comparações entre o uso diário de energia e o consumo mais amplo de energia da população. Conseguimos mostrar como, em um único dia, o data center deve usar o que 2,2 milhões de brasileiros usam.

Em uma segunda matéria baseada no documento, mostramos como o data center foi licenciado sob uma licença genérica de “construção civil” devido à falta de regras específicas de licenciamento para data centers. Isso, por sua vez, levou à redução dos controles ambientais no processo de licenciamento e à avaliação inadequada do impacto ambiental total.

Nossa série ainda está em andamento e esperamos publicar mais investigações sobre esses data centers e novos projetos em andamento. Para nós, esse processo também foi uma experiência de aprendizado.

Algumas lições importantes:

  • O envolvimento da comunidade beneficia nosso jornalismo de várias maneiras: garantiu que nossas reportagens chegassem às comunidades na linha de frente do desenvolvimento de centros de dados no Brasil, nos manteve focados na produção de jornalismo baseado no que elas querem e precisam saber e nos ajudou a acessar materiais que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis.
  • Fale com fontes que você acha que podem não querer falar com você: eu não esperava conseguir falar com executivos de centros de dados por telefone, mas eles aceitaram!
  • Às vezes, não obter uma resposta é uma história em si.
  • Se você não estiver conseguindo informações pelos canais oficiais, seja criativo: usamos o cartório para contornar a falta de transparência.
  • Fique de olho em quem está se reunindo com quem e com que frequência.

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