Fundos de investimento lançados para financiar o agronegócio brasileiro “empacotam” dezenas de títulos de dívida que podem estar vinculados à violações socioambientais. Essa era nossa hipótese — mas como poderíamos prová-la? Pegamos nosso pacote de ferramentas jornalísticas
Investigamos um fundo de investimento quando ele ainda estava em sua infância. O Fiagro, um instrumento financeiro criado pelo Congresso Nacional para captar recursos privados para o financiamento do agronegócio no país, estava entrando em seu terceiro ano de operação quando decidimos abri-lo.
O fundo foi bem-sucedido nos primeiros anos de operação. Alcançou um patrimônio líquido de R$ 44,7 bilhões na Bolsa de Valores do Brasil (B3) de março de 2023 a março de 2025, enquanto seu principal ativo financeiro, o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), aumentou em 46% o volume durante o mesmo período, atingindo R$ 156 bilhões.
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O Fiagro é como um grande pacote com dezenas de ativos financeiros — cada um ligado a uma empresa ou projeto diferente no mundo do agronegócio. Para entender o que realmente há lá dentro, você tem que abrir cada pacote e olhá-lo de perto. É preciso tempo, ferramentas e conhecimento específico, particularmente em análises financeiras e geoespaciais, para responder nossa questão investigativa: o Fiagro está financiando grilagem de terras e/ou violações socioambientais na floresta amazônica? Com o apoio da Rede de Investigações da Floresta Tropical do Pulitzer Center, desempacotamos o Fiagro e publicamos nossas descobertas na série A Bolsa do Agro.
Jornalistas trabalhando em O Joio e O Trigo já haviam descoberto que o Fiagro estava financiando atividades ilegais do agronegócio no Cerrado, outro ecossistema brasileiro frequentemente considerado como a "caixa d'água" do país ameaçado pela expansão de áreas para a produção de commodities, como soja e gado. Nosso objetivo era verificar se o Fiagro tem os mesmos impactos na maior floresta tropical do mundo.
Hipótese
A suspeita inicial sobre o Fiagro surgiu de suas próprias regulações, frouxas. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão governamental responsável por regular todos os instrumentos financeiros negociados no mercado de capitais brasileiro, não apresenta regras para impedir que os recursos do Fiagro sejam acessados por produtores rurais e empresas envolvidos com atividades comerciais ilegais.
O Brasil tem um histórico de violações socioambientais financiadas por crédito rural público, dinheiro de empréstimos bancários com juros subsidiados pelo governo, o conhecido Plano Safra. Mas tais abusos estão sendo combatidos por regulações que excluem produtores rurais e empresas "sujas" de acessar o crédito. Investigando o tema, percebemos que há uma falta total de regras desse tipo para o Fiagro.
Portanto, a hipótese que nos propusemos a provar era de que produtores rurais e empresas estavam tomando dinheiro emprestado de títulos agrupados pelo Fiagro e aplicando-o em negócios que lucram com atividades ilegais que destroem a Amazônia.
Metodologia e Fontes de Dados
Após algumas entrevistas com gestores de fundos e profissionais do mercado financeiro, identificamos conjuntos de dados que seriam úteis para testar a hipótese. O ponto de partida foi um banco de dados mantido pela B3, que mantém documentos obrigatórios para todos os fundos de investimento listados para o investidor geral. Esses relatórios, disponíveis em PDF, listam os ativos financeiros, como os CRAs. Isso nos levou a examinar mais de perto os próprios ativos.
Os documentos desses ativos são armazenados em bancos de dados privados, mas que também são acessíveis publicamente através do website das empresas de securitização — responsáveis pela emissão de CRAs, os títulos lastreados em recebíveis do agronegócio. Foi aí que a verdadeira investigação começou: programamos uma linguagem de programação usando Python para raspar mais de 10.700 arquivos PDF dos sites de oito diferentes empresas de securitização: True/Opea, Virgo, Ecoagro, Provincia, Canal, Vert e Ceres. Esses arquivos PDF contêm informações detalhadas dos ativos de Fiagros, o que nos permitiu identificar a quantidade de dinheiro captada, para onde este recurso estava indo e, o mais importante, os nomes das pessoas físicas (produtores rurais) e jurídicas (empresas do agronegócio) beneficiárias dos títulos.
Descobrimos empresas que acessaram enormes quantidades de crédito através de CRAs para financiar suas operações, incluindo gigantes da carne como a JBS e a Minerva Foods, bem como um produtor de etanol "verde", a empresa mato-grossense FS Fueling Sustainability.
Havia mais para investigar: alguns documentos contêm listas de produtores rurais — como fornecedores de milho e gado — pagos com recursos de ativos do Fiagro. Como essas listas ultrapassam centenas de páginas em PDF, tivemos que usar ferramentas de extração de tabelas incluindo o Tabula (código aberto) e o ExtractTable (pago), para assim estruturar os dados do PDF em planilhas e conseguir trabalhar com eles.
Após organizar e limpar os nomes, cruzamos essas informações com uma série de conjuntos de dados de crimes ambientais baixados do site do Ibama, que contêm detalhes de infrações ambientais como termos de embargos, autos de infração e multas. O cruzamento foi feito em uma plataforma interna de dados, RIN Data, desenvolvida pelo Pulitzer Center e baseada no Aleph, plataforma de dados de código aberto do Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) para apoiar o jornalismo investigativo.
Outra abordagem útil foi contatar organizações de pesquisa e dados especializados que nos interessavam. Formamos parcerias com o Center for Climate Crime Analysis (CCCA) e a Operação Amazônia Nativa (OPAN), que compartilharam seus bancos de dados e apoiaram a investigação com suas expertises no campo da cadeia de suprimentos da carne e de conflitos fundiários dentro de terras indígenas, respectivamente.
Esta análise identificou indivíduos e empresas ligados à invasão de terras e conflitos, expulsão de povos indígenas de seus territórios e desmatamento ilegal na Amazônia Legal. Usando bancos de dados do governo brasileiro incluindo o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef), os Cadastros Ambientais Rurais (CAR) e o Sistema Integrado de Informações sobre Operações Interestaduais com Mercadorias e Serviços (Sintegra), conseguimos identificar os locais onde esses atores estavam realizando atividades comerciais, como criação de gado e cultivo de lavouras. Tais informações orientaram nossas viagens de reportagem de campo. Foi crucial visitar os locais para verificar o que estava acontecendo no terreno e conversar com as comunidades afetadas.
Em Rondônia, o primeiro estado amazônico que visitamos, testemunhamos gado sendo criado dentro de uma área embargada sobreposta à Terra Indígena Tanaru. Isso foi uma clara violação da lei, já que todas as atividades comerciais são proibidas em áreas embargadas. Usando GTAs (guias de trânsito animal), rastreamos o gado da área embargada para outra fazenda legal pertencente à mesma família para ser "lavado" antes de ser vendido aos frigoríficos da JBS e Minerva Foods.
Em outro estado amazônico, Mato Grosso, membros indígenas do povo Kawaiweté/Kayabi nos contaram que tentaram retornar à sua terra ancestral no início dos anos 2000 depois de terem sido expulsos na década de 1960. No entanto, foram ameaçados e avisados para deixar o território por produtores de soja, milho e algodão que operam em fazendas na terra indígena demarcarda. Dois deles são acionistas de uma empresa de biocombustíveis que lucrou com ativos Fiagro.
Bancos de dados usados na investigação:
- Arquivos da CVM: O Boletim do Agronegócio, publicado trimestralmente pelo Ministério da Fazenda, fornece informações sobre questões-chave; a CVM também lista a legislação recente para títulos do agronegócio;
- Fundos.net: uma base de dados de fundos de investimento públicos e títulos, diretamente conectada à bolsa de valores brasileira;
- Anbima: a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais exibe dados financeiros compilados e relatórios de influência financeira no meio digital;
- Sites de securitizadoras: fonte para detalhamentos do conteúdo dos títulos. A Eco Securitizadora foi responsável pela primeira emissão pública de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) nos mercados de capitais brasileiros e é a atual maior emissora de títulos do agro;
- Edgar/SEC: tem relatórios anuais e de sustentabilidade de empresas americanas, é útil para informações de empresas de capital aberto;
- Relatórios financeiros de diversos veículos de comunicação;
- Ministério da Agricultura e Pecuária: relatórios de instrumentos agro-financeiros publicados mensalmente;
- Sustainalytics, Climate Bonds Initiative, ICMA: relatórios e padrões internacionais para emissões de títulos, ranking de avaliação de risco climático e ambiental;
- Redes sociais: YouTube e LinkedIn foram as principais plataformas para encontrar tanto atores financeiros quanto investidores que se tornaram nossas fontes;
- Grupos de mensagens instantâneas: grupos e canais do Telegram são uma porta de entrada para as comunidades de analistas financeiros, influenciadores financeiros e investidores;
- Sayari, CruzaGrafos, Aleph: fontes de dados alfandegários, fluxos comerciais e informações de empresas;
- ONR, Sicar, Sigef: registros e documentação fundiária brasileiros;
- Sintegra: informações sobre transações interestaduais envolvendo bens e serviços;
- Sistema de Tribunais Regionais Federais, JusBrasil, serviço de assessoria de imprensa do Ministério Público e uma base de dados parcialmente paga de casos judiciais envolvendo pessoas físicas e jurídicas;
- Prodes/INPE, Mapbiomas: conjuntos de dados e alertas de desmatamento;
- Funai e ICMBio: dados geoespaciais de territórios indígenas, áreas protegidas e unidades de conservação;
- Ibama: dados de embargos, autos de infração e multas;
- Fala.br/Lei de Acesso à Informação: requisições para acessar dados oficiais e não públicos, como detalhamentos de termos de embargo;
- Planet Explorer, Sentinel Hub EO Browser, Google Earth Pro: imagens de satélite para comparações de antes e depois do desmatamento;
- Relatórios do Imazon: localizações de frigoríficos;
- GTAs: dados de trânsito de animais entre fazendas que contêm a origem do gado e seu proprietário; local de partida; data e hora de partida; destino pretendido; duração esperada da viagem.
Limitações da Metodologia
Uma das maiores limitações nos dados financeiros é a falta de detalhes sobre o real destino dos recursos. Um pequeno número de fundos de investimento e títulos inclui listas de entidades que recebem o crédito captado dos mercados de capitais. Quando essas listas estão disponíveis, são uma mina de ouro, pois incluem nomes e números de identificação, como CPFs para pessoas físicas ou CNPJs para empresas. Mas os emissores não são obrigados a publicar tais informações, o que torna incerto o rastreio de empresas específicas ou de produtores rurais que se beneficiaram do crédito privado.
Uma lição que aprendi no processo de investigação foi olhar para os fundos do agro de uma perspectiva mais ampla. No começo, focamos muito nos documentos do Fiagro. Mais tarde, percebemos que os documentos dos ativos fornecem mais dados sobre o uso dos recursos. Muitos dos dados que acabamos coletando vieram desses arquivos relacionados aos ativos.
Finalmente, o jargão financeiro pode ser uma barreira para aqueles que não estão familiarizados à linguagem do mercado de capitais. Ainda assim, com tempo e dedicação, é possível superar o economês e encontrar boas pautas.
Como essa metodologia pode ser replicada para outras investigações
Jornalistas e redações podem replicar essa metodologia para ajudar a melhorar a transparência nos mercados de capitais do Brasil e fora dele. Ela oferece um caminho investigativo que conecta dois pontos-chave. De um lado, estão empresas ou produtores rurais acessando crédito através da bolsa de valores com pouco ou nenhum escrutínio público. Do outro, estão investidores buscando retornos financeiros através de títulos e fundos que podem estar ligados ao mau uso do dinheiro em terras indígenas ou territórios protegidos.
As ferramentas e bases de dados mencionadas anteriormente podem apoiar investigações sobre outras empresas e cadeias de suprimentos, não apenas aquelas envolvendo carne e milho, como mostrado neste caso. Elas também podem servir como ponto de partida para descobrir outros aspectos ainda não investigados no mercado financeiro.
