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Reportagem Publication logo Janeiro 9, 2024

Ritual da Ayahuasca: Como é e quanto custa turismo psicodélico na Amazônia

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ayahuasca leafs and roots in a pot
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Estudos sobre o potencial terapêutico da ayahuasca estão impulsionando uma nova onda de turismo...

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Casal de curandeiros Hernán Saavedra e Jésus Arce com turista. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

A cerca de 15 minutos do aeroporto de Tarapoto, estado de San Martín, no Peru, seguindo por uma estrada de terra, se chega à majestosa Reserva Natural da Cordillera Escalera, uma área de conservação entre os andes e a selva amazônica, à beira do rio Shilcayo.

O fluxo de estrangeiros por lá é intenso, em qualquer época do ano. Apesar das belezas naturais da região, a maior parte dos viajantes está em busca da ayahuasca, uma bebida psicodélica usada há milhares de anos por povos indígenas em rituais xamânicos.

De várias partes do mundo, turistas buscam ali transcendência, cura, autoconhecimento ou simplesmente o puro barato psicodélico em meio à selva.


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Nossa viajou até Tarapoto para ver de perto esse movimento. Há locais seguros, com pacotes e preços variados. Mas, não é uma viagem para qualquer pessoa. E sim, há riscos.


Artesanato em Tarapoto, no Peru. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

'Alucinar é diferente de visionar'

Um risco que se corre em Tarapoto, tal como em outros lugares, é o de ser ludibriado por algum dos muitos falsos xamãs, ávidos pelos dólares dos turistas que desembarcam no país em busca de uma genuína viagem mística-psicodélica. A dica de especialistas é pesquisar bem o centro onde você pretende beber ayahuasca.

ayahuasca faz parte do rico e complexo caldeirão do conhecimento tradicional indígena amazônico, então, o mais indicado é buscar um centro que seja dirigido por um indígena e que tenha uma boa reputação local, mas há também bons trabalhos dirigidos por mestiços, que são chamados de "médicos vegetalistas". Melhor evitar centros que sejam dirigidos por estrangeiros.

Uma maneira de se assegurar sobre a segurança de um determinado centro é buscar informações sobre ele na internet e verificar informações como há quanto tempo o trabalho com ayahuasca é oferecido nesse lugar, se quem dirige é um indígena ou um mestiço peruano e apurar há quanto tempo ele se dedica a essa atividade.

Na dúvida, o mais indicado é buscar orientação com órgaos oficiais de turismo do Peru. Nas cidades amazônicas peruanas, há serviços de atendimento ao turista, que podem orientar sobre quais centros de ayahuasca são realmente seguros. Seguem, logo abaixo, contatos e endereço:

IPERÚ Tarapoto
Jr. Ramírez Hurtado s/n, cdra.1 (plaza de Armas), - San Martín - San Martín - Tarapoto - Perú - 22201
Central telefónica
(+51-1) 616-7300, anexo 1899
(+51) 990057615
[email protected]

Um dos mais antigos de Tarapoto é o Sonco Wasi, dirigido pelo peruano Jorge González Ramírez, 76. Ele afirma trabalhar há 52 anos com a medicina tradicional amazônica, tratando problemas físicos, psicológicos e espirituais.

O curandeiro estima já ter dirigido mais de 7 mil sessões de ayahuasca com a participação de mais de 300 mil pessoas. Lá, as cerimônias acontecem semanalmente, para participar o viajante terá que desembolsar 300 soles (cerca de R$400).

"Alucinar é diferente de visionar", afirma Ramirez. Ele reclama do termo alucinógeno, geralmente associado à ayahuasca. "Alucinação é ver o que não existe".

Segundo ele, as visões proporcionadas pela bebida psicodélica, em geral, estão relacionadas com alguma questão íntima da pessoa, algo que precisa ser trabalhado, traumas, medos, bloqueios, vícios. "É como um filme que lhe permite estudar sua própria vida."

A peruana Alessandra Baressi, de Lima, participou de uma sessão no Sonco Wasi. Para ela, foi uma experiência de autoconhecimento.

"Me permitiu entrar em contato com meu interior e curar feridas emocionais, muitos dizem que é um transe, mas é mentira, a planta proporciona uma maior conexão consigo mesmo e com tudo ao redor."


Entrada do centro de ayahuasca em Tarapoto. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

Ayahuasca: patrimônio cultural do Peru

Uma das razões do crescimento do turismo psicodélico no Peru é a legalidade. Considerada pelas populações nativas uma "planta professora" capaz de curar ou transformar a vida de uma pessoa, a ayahuasca é reconhecida no país como patrimônio cultural, desde 2008.

Um estudo do Iceers (sigla em inglês para Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânico), sediado na Espanha, estima que mais de 4 milhões de pessoas pelo mundo tenham consumido ayahuasca em algum momento da vida.

De acordo com o relatório, que foi divulgado este ano, apenas em 2019 aproximadamente 820 mil pessoas beberam ayahuasca, o que representa quase 5,5 milhões de doses.

O mesmo estudo do Iceers mapeou os centros de ayahuasca em países amazônicos, e o Peru é o país com a maior quantidade de espaços oficiais em atividade atualmente: são 174, ou 74,6% do total na região (isso sem contabilizar os clandestinos).

"As cerimônias de ayahuasca representam pilares fundamentais da identidade cultural dos povos amazônicos", argumenta o texto que embasou a decisão do Instituto Nacional de Cultura do Peru, cuja finalidade é a garantia da continuidade dessas práticas.

A empolgação generalizada da ciência em torno do potencial terapêutico das drogas psicodélicas também está dando um empurrão importante. Estudos recentes no Brasil, como a pesquisa coordenada pelo físico e neurocientista Draulio de Araujo, da URFN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), testou a ayahuasca em pacientes com depressão resistente a tratamentos, foi o primeiro estudo controlado por placebo com ayahuasca, e que apresentou resultados animadores.

Ele pesquisa há mais de 15 anos substâncias psicodélicas, e o trabalho de sua equipe sobre o efeito antidepressivo da ayahuasca chá ajudou a colocar o Brasil em terceiro lugar em um ranking de países com artigos de maior impacto sobre psicodélicos.

Embora não conclusivas, essas pesquisas podem estar por trás da nova movimentação em busca da cura e da expansão da consciência na selva.


Objetos utilizados nas sessões com ayahuasca. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

Meditando com plantas

"Embora tenha sido difícil, mudou minha vida", afirma o americano Jim K, que viajou de Nova York, onde vive, até o Peru para uma vivência no centro Yacumaman, em Tarapoto. "As profundezas onde a ayahuasca me levou, me enviaram para casa um homem diferente, que ainda estou conhecendo."

Lá, o uso de plantas psicoativas amazônicas, como a ayahuasca, é acompanhado por outras técnicas. Dionisio Santos, fundador do centro Yacumaman define seu trabalho como meditação com plantas. A ideia não é alcançar êxtase, felicidade espiritual ou tranquilidade, mas expor e desfazer jogos neuróticos.

"É uma maneira de perceber as neuroses da mente e usá-las. Como esterco, não jogamos ou escondemos, mas as espalhamos em nosso jardim, tornam-se parte da nossa riqueza", diz ele.

Um dos pacotes oferecidos no centro Yacumaman é o retiro de sete dias, que inclui sessões com plantas, ioga, meditação, massagem xamânica, banhos de planta, passeios em cachoeiras, fontes termais, caminhadas na selva amazônica, entre outras atividades.

No total, são três cerimônias de ayahuasca, refeições orgânicas (comida vegetariana, sem sal e glúten), microdosagem de ayahuasca entre as sessões. O pacote inclui sessões de coaching e o traslado do aeroporto de Tarapoto (não o transporte aéreo).

Se animou? Então, prepare o bolso e chame os amigos. Para grupos sai mais em conta. De 5 a 8 participantes, custa 1.500 dólares por pessoa. Entre 3 e 4, o valor individual fica em 3 mil dólares. Para dois, o valor é bem mais salgado: 5 mil dólares cada.


O curandeiro Hernán Saavedra no Centro Tangaranas. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

Retiro raiz

Para uma experiência mais de raíz e tradicional, uma boa dica é o centro Tangaranas do casal de curandeiros Hernán Saavedra e Jésus Arce, que funciona há 20 anos em Tarapoto.

As cerimônias de ayahuasca acontecem semanalmente em um sítio a 7 quilômetros do centro da cidade. Também são realizadas dietas com plantas amazônicas e retiros xamânicos em outro espaço de mata abundante, às margens do rio Mayo, no distrito de Juan Guerra, a 20 quilômetros de Tarapoto.

Nas dietas são usadas plantas purgativas e depurativas que na tradição da medicina amazônica possuem a finalidade de uma desintoxicação física, emocional e energética.

O casal também oferece integração com outras práticas, como sessões de massagem, reflexologia e reiki. Preços e datas devem ser tratados diretamente com eles.


Curandeiro Hernán Saavedra com cachimbo de mapacho em sessão de ayahuasca. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

Isso porque o casal vê com cuidado o movimento turístico em torno da ayahuasca. "A medicina tradicional não deve ser vista como uma atração turística, muitos acabam buscando a experiência como algo recreativo, para uma viagem alucinógena, e não é para isso", afirma a curandeira Jesus Arce.

Ela adverte que se for mal administrada, a bebida pode trazer problemas. A ayahuasca é muito poderosa, e pode levar a estados mentais e físicos bem profundos. É possível que questões pessoais difíceis de vivenciar apareçam. Se a experiência como um todo (antes, durante e depois) não for administrada por uma pessoa experiente, pode ser algo bem assustador e até sair do controle.

É importante que o dirigente (xamã, curandeiro) faça uma boa entrevista prévia para identificar eventuais problemas de saúde e avaliar condições que mereçam atenção, também é importante que a pessoa seja orientada a fazer uma dieta correta antes da sessão e que a cerimônia seja conduzida da forma responsável.

Uma recomendação básica é se abster de alguns alimentos e não usar drogas e álcool antes de participar de uma sessão de ayahuasca. Também é bem importante que a cerimônia seja dirigida por alguém com experiência.

Especialistas advertem ainda que o uso de medicamentos antidepressivos ou histórico de esquizofrenia na família são contraindicações para o uso de ayahuasca.


O curandeiro Aquilino Chujandama. Imagem por Ramiro Solsol/UOL. Peru, 2023.

Clã da ayahuasca

"Meus tataravós, avô e pai eram todos curandeiros", conta Aquilino Chujandama, 77, patriarca de um clã de curandeiros, que vive há muitos anos em Chazuta, há cerca de uma hora de Tarapoto. "É parte da nossa cultura". Ele dirige os trabalhos no centro Urkuruna ao lado do filho, Artidoro, 48.

No Urkuruna os trabalhos são no modo típico da medicina tradicional amazônica. Antes de beber ayahuasca é necessário passar por um processo de limpeza com plantas purgativas, dieta alimentícia e abstinência sexual. O pacote de três dias inclui purga, uma cerimônia de ayahuasca, banhos com plantas e sai por 1.500 soles (aproximadamente R$ 2 mil). O valor inclui estadia, alimentação e traslado de Tarapoto até o centro.

Aquilino explica que a ayahuasca é uma bebida milenar usada desde o período pré-inca para curar mente, corpo e espírito. "Ela te fará rir, chorar, vomitar e te liberar de emoções represadas que com o tempo se tornam doenças, como o câncer".

Buscar o turismo psicodélico apenas para uma experiência exótica na selva é desperdiçar a oportunidade de uma experiência profunda de autoconhecimento. Porém, buscar no xamanismo um tratamento para enfermidades graves não é algo recomendado, adverte o médico Cesar Camara, da empresa Biocase Brasil, que atua no campo dos psicodélicos.

"O fato desses tratamentos ancestrais serem realizados com produtos da selva e na selva, não nos autorizam a corroborar uma busca de forma indiscriminada e ainda menos a aplicação dessas terapias ou experiências sem um cuidado individualizado."

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