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História nos Morros Recifenses: Saúde dentro das Favelas

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A placa indicado a entrada da Unidade de Saúde da Família (USF) no Córrego do Eucalipto. USFs são a peça chave na estratégia primaria do sistema de saúde público brasileiro. Foto por Poonam Daryani, Brasil, 2017.

A placa indicado a entrada da Unidade de Saúde da Família (USF) no Córrego do Eucalipto. USFs são a peça chave na estratégia primaria do sistema de saúde público brasileiro. Foto por Poonam Daryani, Brasil, 2017.

Escrito por Poonam Daryani. Traduzido por Rafael Alkalai.

Interpretação foi realizada por Rafael Alkalai, Tiago Cabral, Adriana Bentes dos Santos, e Margarida Corrêa Neto.

RECIFE, Brasil - Dado o meu interesse em saúde pública comunitária, eu topei imediatamente o convite para visitar uma Unidade de Saúde da Família no bairro do Córrego do Eucalipto. O Sistema Único de Saúde Brasileiro(SUS) conseguiu crescer para abranger quase que universalmente a população, através de uma ampliação da sua principal estratégia de saúde, parte chave dessa estratégia são as USFs. Em teoria, cada USF deveria estar equipada com um time multidisciplinar de profissionais de saúde que seria responsável por uma certa parte da comunidade. USFs são o primeiro ponto de contato com o sistema de saúde, e o seu foco é prevenção de doenças e promoção de saúde pública.

Eu e o meu intérprete levamos quase uma hora e meia para chegar na USF, escondida em uma rua estreita nas colinas ao norte da cidade. A mudança do terreno foi uma das primeiras coisas que me impressionou. Ao longo da viagem, enquanto nos afastávamos do centro da cidade, ruas planas e altos edifícios se transformaram em meandros estreitos subindo morros inclinados. Contornamos as ruas, que estavam densamente populadas de casas coloridas e improvisadas, umas sobre as outras em um delicado equilíbrio.

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A parte de fora da USF, a Unidade de Saúde da Família na comunidade do Córrego do Eucalipto, escadarias sobem para encostas cheias de lares. Algumas pessoas se referem a estas áreas como favelas, enquanto outras preferem o termo: "Região Periférica ou Periferia". Foto por Poonam Daryani, Brasil 2017.

Eu perguntei para Talita Rodrigues, 26, a psicóloga residente na USF, se essa comunidade é considerada uma favela. A resposta dela me surpreendeu. "No começo, qualquer área suburbana com uma população majoritariamente negra era considerada uma favela" disse ela, "mas aí a população decidiu que o uso de termo estigmatizava a área, e por fim a criminalizava. Então agora, as autoridades referem a esta área como uma 'região periférica'. Mas algumas pessoas na comunidade estão lutando para chamá-la de favela. Eles não querem que a realidade seja mascarada e apagada. Em termos práticos, aqui é uma favela, não importantando como você decida chamá-la.”

Dando algum contexto sobre o desenvolvimento da favela, Talita contou que no começo do século passado, "antigos escravos tentaram ocupar o centro da cidade, mas gradativamente foram forçados a se deslocarem para os morros, para as áreas em que estamos agora. É por isso que existe uma maior concentração da população negra nessas áreas do que você vai encontrar no centro da cidade. Mesmo depois que houve a abolição da escravidão, não houveram políticas públicas que ajudassem com a integração."

Gerson da Silva, 25, é o sanitarista residente na USF. O seu papel é essencialmente o de um epidemiologista da comunidade - ele investiga e interpreta padrões de doenças.

Gerson descreveu a relação entre a moradia e o estado de saúde na comunidade. "A forma com a qual doenças se espalham na comunidade tem muito haver com o terreno físico. Nós temos grandes problemas de lixo e poluição. Devido à inclinação dos morros, não existe esgoto nem sistema de coleta de lixo. Invés disso, é pedido aos residentes que carreguem seu lixo para as áreas mais baixas para a realização da coleta em dias específicos. Entretanto, é difícil para as pessoas acompanharem os períodos de coleta de lixo, então elas acabam trazendo o seu lixo a qualquer hora do dia, e começa a se acumular. Quando chove, a água espalha o lixo por toda a rua."

"A gente também vê muitas dores nas articulações em vários membros da comunidade" ele continua, "como resultado tanto da chikungunya como também de ter que subir e descer tantas escadas nos morros."

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A equipe multidisciplinar de profissionais de saúde da USF Córrego do Eucalipto. Cada USF deveria ter um médico, enfermeira, assistente de enfermagem e vários agentes de saúde pública, junto com uma equipe de cuidado primário que pode incluir nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, entre outros. Talita Rodrigues, 26, psicóloga residente, está no centro da imagem com uma regata estampada, junto a Gerson da Silva, 25, o sanitarista residente, à direita de Talita. Foto por Poonam Daryani, Brasil 2017.

Como psicóloga, Talita disse que ela encontra muitos casos de depressão e tentativas de suicídio e "condições de estilo de vida", como pressão alta. "Eu acho que tudo isso tem haver com o trauma histórico da escravidão que é carregado através das gerações, combinado com a atual falta de políticas públicas e investimento para a prevenção dessas doenças" diz ela. "Na comunidade, não existem parques ou áreas públicas, não tem escola nem creche. A única atividade de lazer que a criançada tem é empinar pipa."

Talita acredita que o negligenciamento da comunidade tem criado um ambiente de violência, especialmente entre os jovens. "Venda e tráfico de drogas são muito comuns, mas esses são problemas criminais para serem lidados pela polícia, e não enquanto problemas de saúde pública, então eles não nos envolvem nas respostas a essas questões."

Os morros, mais uma vez tem um papel em como o problema da violência derivada das drogas está sendo lidado. "A polícia tem medo de subir o morro, porque eles não conhecem os caminhos e não sabem o que tem escondido por aí" explica Talita. Então eles tendem a ficar nas áreas mais baixas, eles não sobem aqui a não ser para prender ou matar."

Quando eu saí da USF naquela tarde, prova das palavras de Talita e Gerson eram visíveis - eu vi o que antes não tinha visto. Fora da Unidade de Saúde, na parte de baixo de uma escadaria que subia o morro, havia uma assombrosa pilha de lixo.

Eu segui os degraus das escadarias com o olhar, tentando acompanhar seus caminhos tortos morro acima, admirada com o seu poder de formar uma comunidade.

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